O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, afirmou ontem em Lisboa, que o Mercosul deverá apresentar ainda este ano sua posição sobre a proposta tarifária da União Européia, que cobre 90% dos itens negociados entre os dois blocos. ‘‘Ao fazer essa oferta, a União Européia não espera uma contraproposta agora. Eles têm o direito a uma proposta do Mercosul, que será apresentada em reunião em nova data, no correr deste ano’’, disse Lafer, sobre as declarações do comissário do Comércio Europeu, Pascal Lamy.
Para a reunião desta semana em Montevidéu, Uruguai, o Mercosul não está preparado para discutir a proposta tarifária. ‘‘A posição do Mercosul era de discutir métodos e modalidades, até por causa das barreiras fitossanitárias.’’ Lafer disse que ainda não tinha conhecimento dos termos da proposta européia. ‘‘Ontem à noite fiquei sabendo da possibilidade dessa oferta, mas não da proposta definida. Isso representa uma clara manifestação da importância que a União Européia atribui ao Mercosul. Nas reuniões que tive em Bruxelas com o comissário Pascal Lamy manifestei o interesse de receber esta oferta.’’
Sobre a posição do comissário Lamy, que afirmou em Bruxelas que o Mercosul teria de fazer escolhas, Lafer disse: ‘‘Nós somos, como país e como Mercosul, pequenos no âmbito do comércio internacional, mas muito conscientes da importância de sermos global traders. Para nós, a visão é não disjuntiva – ou União Européia ou Alca –, mas sim uma dialética de complementaridade. Faz parte da nossa visão arquitetônica tanto a União Européia quanto a Alca’’.
Lafer contrapôs a idéia de o Mercosul ter de optar pelas normas industriais e fitossanitárias da União Eurpéia ou dos Estados Unidos com a idéia de o Mercosul adotar padrões de certificação próprios. ‘‘O acesso aos mercados passa por padrões tanto na área industrial como agrícola. No âmbito do Mercosul estamos pensando em avançar na coordenação de normas e medidas fitossanitárias.’’
O ministro comentou a declaração de Lamy, que afirmou que o Brasil é um dos pilares da OMC e fundamental para o lançamento de uma nova rodada multilateral de comércio em Doha, no Catar, em novembro. ‘‘A OMC toma as suas decisões por consenso através de uma geometria variável em função da variedade dos interesses. Na minha experiência é difícil chegar a um consenso sem a participação do Brasil, pela diversidade da sua economia.’’
A respeito do novo sistema cambial argentino, Lafer corrigiu suas declarações de ontem, em que dizia que era apenas um assunto interno da Argentina. ‘‘Recebi informações recentes sobre a Argentina e sobre a aplicação do sistema cambial que tem um impacto nas margens de preferência de que os produtos brasileiros gozam. Reservo a posição brasileira para depois do exame dessa situação.’’

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