Lafer diz que Brasil pode desistir de adesão à Alca
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de maio de 2001
Agência Estado De Brasília 
O ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, disse ontem que, se os demais países do continente americano começarem a fazer acordos bilaterais com os Estados Unidos, as exportações brasileiras serão prejudicadas. Uma rede de acordos é ruim para as exportações porque elas perdem a margem de preferência que possuem nesses mercados, disse o ministro, respondendo a um pergunta sobre um possível acordo comercial dos Estados Unidos com o Uruguai, a Argentina ou outros países.
A resposta foi dada na reunião da Senalca, no Itamaraty, grupo presidido pelo negociador brasileiro, embaixador Alfredo Graça Lima, para discutir a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e ouvir setores da sociedade. Lafer voltou a afirmar que, caso não sejam atendidos os interesses brasileiros, o Brasil não vai assinar o acordo da Alca. Mas o ministro alertou para o risco de o Brasil ficar isolado. Se a Alca ainda não é um consenso no Brasil, já é em muitas partes do continente, afirmou.
Segundo Lafer, 50% do comércio internacional do Brasil e 70% das exportações de produtos manufaturados estão concentrados no continente americano. Fundamentado nisso, tenho me esforçado para aumentar nossa competência negociadora e fortalecer a participação da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e da sociedade civil nas decisões sobre a Alca, disse.
Caso se confirme a tendência demonstrada na terça-feira pelo Congresso americano de limitar a capacidade negociadora do Fast Trade Authority (FTA), mandato que o executivo americano está solicitando ao Congresso para negociar acordos, as discussões sobre a Alca serão dificultadas, na avaliação de Lafer. Isso poderá diminuir o escopo das negociações e, para o Brasil, a Alca não é só uma discussão de tarifas, mas de regras e normas e sobre o fim das barreiras não-tarifárias, disse. Portanto, diminuir nossas tarifas médias para aproximá-las das praticadas pelos Estados Unidos não representa um equilíbrio, afirmou.
Um grupo de 61 senadores dos Estados Unidos enviou uma carta ao presidente George W. Bush indicando que os parlamentares só vão aprovar o FTA se forem excluídas das negociações da Alca as leis que permitem que Estados Unidos levantem barreiras não-tarifárias, como as relativas a dumping e subsídios, por exemplo.
O ministro ouviu uma série de sugestões de organizações não-governamentais e outros setores sobre as negociações da Alca, inclusive a proposta da Central Única dos Trabalhadoreas (CUT) de promover um plebiscito sobre a Alca. É difícil sobmeter a população a uma consulta sobre um acordo ainda desconhecido, respondeu o ministro. Só se pode perguntar à população se quer a Alca quando soubermos exatamente como ela será, o que só será possível depois das negociações. De acordo com o embaixador Graça Lima, até o fim do mês será publicada uma síntese das posições do governo brasileiro e do Mercosul na Alca.
Esse material vai facilitar a leitura da minuta da reunião de cúpula dos presidente da Alca, que tem mais de 400 páginas, e deverá estar disponível em português em breve, disse.


