As pessoas, como eu, que viveram a ‘‘nacionalização’’ de algumas coisas que estão sendo, agora, ‘‘privatizadas’’ (correto seria dizer re-privatizadas) conhecem a história. Os mais jovens, não - pois essas coisas aconteceram nos governos ainda mais ou menos democráticos de Vargas e Juscelino.
Mas, a CEG carioca, por exemplo, era francesa: a Société Anonyme du Gaz du Rio de Janeiro. A São Paulo Light & Power Co. era canadense, assim como a Light do Rio. Na Light paulista trabalhou o meu avô, Humberto, feliz e contente, durante 42 anos de sua vida, numa época em que funcionários, graduados da companhia gozavam do luxo de não ter relógio de medição em suas casas. Eram os ‘‘sócios da Light’’ como ralhava minha mãe, quando a gente esquecia de apagar a luz. E os telefones eram operados por uma subsidiária do competente Bell System, dos Estados Unidos. Ainda lembro do sininho - e da marca CTB, para Cia Telefônica Brasileira - no meio dos discos, encimando os números.
Já peguei essas empresas funcionando mal. E a razão era simples: como forneciam serviços públicos, todas as suas atividades eram rigorosamente controladas pelo governo, inclusive, naturalmente, os preços - dos impulsos, dos quilowatts e dos metros cúbicos. Como governo, nesse país, nunca se preocupou muito com um detalhe da vida chamado realidade, os políticos exigiam que essas firmas privadas e estrangeiras cobrassem tarifas baixíssimas. O resultado foi que todas elas deram graças aos céus quando o governo decidiu encampá-las, nacionalizando-as.
Eram tempos de Jango, Brizola, Mao, Khruschev e Fidel Castro e muita gente acreditava que o Estado era capaz de fazer alguma coisa bem-feita, até mesmo operar empresas.
Eu mesmo, garoto, sentia-me vagamente orgulhoso de não ter mais os ‘‘gringos’’ aqui controlando aquelas coisas que eram ‘‘nossas’’, como a energia, o petróleo e as comunicações.
Essas reminiscências insistem em vir-me à mente, no momento em que este governo - pós-marxista, como o denomina nosso genial Roberto Campos - propala aos espaços que quer porque quer e está ‘‘privatizando’’ as empresas estatais e que elas, assim, passarão a ser eficientes. Não tenho certeza dessa fórmula simplista, nem da relação de causa-e-efeito.
Veja-se, por exemplo, algumas estradas e obras públicas, como a ponte Rio-Niterói, que foram recentemente privatizadas. É evidente que os preços estabelecidos para os pedágios, de R$ 1,38 ou R$ 3,69 - que fazem de nós motivo de chacota para o resto do mundo civilizado (e privatizado) - só puderam sair da cabeça de algum burocrata delirante, dentro do governo. E que o governo continuará a tomar todas as decisões importantes sobre a operação, inclusive para inviabilizá-la se e quando for conveniente. A mesma coisa vai ser feita, certamente, com a telefonia, as comunicações e os demais serviços públicos.
Mas, ainda que as cartas não fossem marcadas dessa maneira, qual é - a rigor - a vantagem para o cidadão/consumidor de se trocar uma empresa estatal por uma privada com concessão de monopólio - que é o que vai acontecer com a maioria dessas privatizações, inclusive da tão polemizada CVED? Nenhuma, se lembrarmos que há muito pouco tempo mesmo, o meteórico e incômodo presidente Fernando Collor precisou dizer que nossa indústria automobilística fabricava carroças... E fabricava mesmo. Foi preciso entreabrir rapidamente as fronteiras para que melhorasse a qualidade dos nossos automóveis. Assim mesmo, não quiseram fabricar vans. Queriam que continuássemos a engolir kombis - se só dependesse ‘‘deles’’.
O verdadeiro problema do Brasil foi uma vez equacionado por um personagem de Lewis Carroll, do País do Espelho chamado Humpty Dumpty, ao responder a uma perplexa Alice se não era importante saber as diferenças entre os significados das coisas. Não minha filha, asseverou o rotundo personagem. O importante é saber quem manda.
Isso, no Brasil, nós já sabemos, faz algum tempo. O que é motivo para ficarmos todos muito preocupados com essas privatizações a toque de mula de ultimamente nos vêm sendo exibidas como panacéias.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e MarketingJosé Roberto Whitaker Penteado
No Brasil as empresas privadas pertencem ao governo e as estatais não pertencem a ninguém - Mario Henrique Simonsen ou Roberto Campos (acho)

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