Considerando a infraestrutura da região e a distância dos portos, é pouco provável que Londrina consiga atrair indústrias de grande porte como as automobilísticas ou outras voltadas ao mercado externo. Pequenas e médias indústrias, especialmente as alimentícias, são as mais adequadas para a cidade. Essa é a visão do prefeito eleito, Alexandre Kireeff (PSD).
Em entrevista à FOLHA, ele disse que a industrialização não deve ser buscada a qualquer preço. ''Nem sempre a industrialização e o aumento do PIB (Produto Interno Bruto) se refletem em impacto positivo, em distribuição de renda'', afirmou.
Kireeff deu ênfase à ''indústria criativa'', especialmente ao turismo de eventos culturais. ''Londrina tem uma produção cultural excepcional, mas a aproveita mal do ponto de vista econômico'', disse.
Sobre o Arco Norte, projeto de desenvolvimento regional que tem como âncora um aeroporto internacional de cargas a ser instalado na zona sul de Londrina, o prefeito eleito o classificou como um ''equipamento fantástico'', mas que tem o desafio de ser sustentável. ''Se ambientalmente for insustentável lá, evidentemente que não será realizado'', afirmou ele a respeito do terreno escolhido para o projeto, localizado próximo à Mata dos Godoy.
Confira abaixo a entrevista de Alexandre Kireeff:
Como o senhor vê o fato de o PIB de Londrina crescer menos que o das principais cidades do Estado e do País?
A interiorização do Brasil impacta fortemente nos números. Conforme o agronegócio avança, você leva para o interior do País parte do desenvolvimento econômico. E Londrina já não é mais uma fronteira agrícola. Uma das principais vertentes da matriz econômica do Município é ligada à agropecuária. Considerando que estamos próximos da saturação, isso dificulta a expansão do nosso PIB.
Além disso, tivemos um processo de industrialização no País dirigido para as regiões próximas aos portos. E Londrina não é beneficiada neste aspecto. Aliás, a solução logística londrinense é limitada pela malha ferroviária, que também está saturada. A malha rodoviária é extremamente pedagiada e a aeroportuária tem limitações.
Se quisermos ter um ritmo de crescimento de destaque, temos de fazer algumas intervenções na cidade, tanto do ponto de vista de marco regulatório quanto do ponto de vista da infraestrutura propriamente dita.
O senhor concorda que, sem industrialização, um município não consegue se desenvolver economicamente?
Nem sempre a industrialização e o aumento do PIB se refletem em impacto positivo, em distribuição de renda. Então, tem que ter um perfil, tem que ter uma estratégia. A industrialização, única e exclusivamente sob o ponto de vista da instalação de qualquer empresa, não para em pé. O processo de industrialização tem que ser sustentado numa avaliação técnica, com identificação de potencialidades e indução para que aconteça. Isso só pode ser feito se tivermos um estudo. Vou citar o exemplo de um estudo muito bem feito e mal executado que foi o PDI (Plano de Desenvolvimento Industrial), realizado no governo Cheida (ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida). Foram identificadas as potencialidades, o perfil industrial que poderia gerar uma vantagem comparativa em Londrina.
Mas esse PDI se perdeu, não é?
Se perdeu, mas pode ser resgatado. Não exatamente aquilo que foi feito nos anos 90. Evidentemente nem tudo tem validade no dia de hoje. É necessário reavaliarmos aquele trabalho, reorganizarmos essa análise para que possamos ter um foco. É pouco provável que possamos instalar aqui uma indústria voltada à exportação, uma indústria automobilística, se considerarmos a nossa localização geográfica e solução logística que temos. Tem que haver o perfil adequado e tem de estar alinhado com as potencialidades da nossa região. Tem de estar alinhado ao perfil acadêmico da nossa região.
Vou dar um exemplo: por que Londrina tem uma construção civil tão desenvolvida? Porque temos uma escola de engenharia civil e arquitetura há quase 40 anos. Por que temos um setor de saúde privada tão desenvolvido? Porque temos escolas de medicina, de fisioterapia, de enfermagem, todo um complexo educacional e acadêmico voltado a essa área. Por que não temos empresa de tecnologia? Porque os cursos de engenharia elétrica e eletrônica acabaram de chegar a Londrina.
Mas a construção civil não gera muitos postos de trabalho com bons salários, não é?
Eu não estou discutindo isso. O que eu quero dizer é que, se não houver uma conciliação de todas essas vertentes, não vamos conseguir a industrialização. Quando a Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina) se posiciona pedindo escolas de engenharia em Londrina, ela vai ao encontro dessa necessidade, para que haja um processo de industrialização. Sem engenheiros eletrônicos, químicos, de produção, não teremos facilidade.
Tendo em vista a infraestrutura que a cidade tem hoje, que tipo de indústrias o senhor acha que poderiam ser atraídas?
A de transformação de alimentos de segunda geração. Não apenas esmagamento de soja ou de qualquer outro produto agrícola. Mas, a segunda geração realmente seria muito importante.
E por que a cidade não se industrializou? Foi por que se contentou com sua ''vocação'' para serviços?
A cidade tem uma vocação natural para serviços, tanto é que esse setor aflorou. O processo de industrialização tem que ser induzido. Ele só acontece naturalmente se houver muitas condições circunstanciais. Não é o nosso caso. Então, precisamos nos preparar e atuar estrategicamente para atingirmos o objetivo.
Nós vimos agora a Atos (multinacional que presta serviços de Tecnologia da Informação) anunciando sua instalação aqui. Ela vem porque o meio ambiente é propício à instalação. Existe uma mão de obra com perfil adequado às necessidades dela. A empresa não necessita de soluções logísticas sofisticadas. Então eles podem se instalar.
Na sua opinião, qual foi o impacto da instabilidade política dos últimos 12 anos na economia da cidade?
Não tenho dúvida de que teve um impacto de dificultar a atração de investimentos. A única coisa que o investidor não quer é correr risco. Ele quer minimizar os riscos e maximizar os lucros. Essa é a visão do capital. E um ambiente político instável vai na contramão de tudo isso.
Na semana passada, a Câmara aprovou um projeto de lei para mudar o zoneamento de um terreno pertencente à empresa LOG, que quer instalar em Londrina um centro logístico. O projeto rendeu polêmica e até uma denúncia ao Ministério Público. Essa é uma situação que se repete na cidade. Na sua opinião, por que isso ocorre?
É porque não temos um planejamento consistente. Não temos um marco regulatório. Nem o Plano Diretor, que seria o instrumento básico para o desenvolvimento, conseguimos aprovar. Estamos discutindo o plano diretor há 8 anos. É uma incapacidade de articulação da sociedade como um todo: da classe política, da classe empresarial, dos trabalhadores, da sociedade civil organizada. Não conseguimos desenvolver um plano diretor, que é o primeiro passo do marco regulatório.
Evidentemente, uma empresa como essa tem toda a indicação para ser instalada naquela região por ser o entroncamento rodoviário mais importante da cidade (BR-369 com PR-445) e, infelizmente, não tínhamos uma cobertura legal para que aquela empresa pudesse ser instalada ali.
O senhor pretende apresentar projetos de leis pontuais para trazer investimentos ou esperar a aprovação do plano diretor?
Vamos tentar aprovar este plano diretor o mais rapidamente possível, com serenidade, sem nenhuma precipitação. Mas, enquanto não tivermos um plano diretor, se houver necessidade de intervenções pontuais, desde que sejam transparentes, orientadas pelo bom senso, nós as faremos.
Existe uma área na zona norte que pertence à Cohab prevista para ser uma zona industrial. Mas precisa ser repassada ao Município e sofrer mudança de zoneamento. Isso, por exemplo, o senhor faria por meio de um projeto de lei, independentemente do plano diretor?
A gente pode ampliar esse posicionamento para todas as áreas da gestão pública. Vamos ter de tomar medidas emergenciais e outras medidas de planejamento de médio e longo prazos. Em algumas situações temos de atuar emergencialmente, o que não quer dizer que não vamos fazer um planejamento de médio e longo prazos.
O Instituto do Desenvolvimento de Londrina (Codel) e Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (Ippul) terão prioridade em seu governo?
Pretendemos ao longo dos quatro anos construir o Ippul dos nossos sonhos: estruturado, com quadros e condições de trabalho adequados. E realmente pesquisando e planejando a urbanização de Londrina. Mas é claro que não é num estalo de dedos que se faz isso. Mas, no horizonte de quatro anos, pretendemos entregar o Ippul com as condições de trabalho adequadas.
Qual será sua estratégia para a atração de novos investimentos?
Vamos utilizar a lei de incentivo. É o marco regulatório que temos. Esse marco tem aberturas inclusive para promover incentivos também no setor comercial e de serviços. Existe essa janela de utilização deste marco regulatório. Além disso, queremos a indústria criativa. Acredito muito no potencial dela. Especialmente no que se refere ao turismo de eventos culturais. Londrina tem uma produção cultural excepcional e a aproveita mal do ponto de vista econômico.
Londrina já é a capital dos festivais. E pode se tornar a capital do turismo cultural. Não há nenhum impeditivo para que o Filo seja um destino de turismo como o Festival de Gramado já o é. Por isso que nos alinhamos com o entendimento da bancada (parlamentar) para que as emendas ao Orçamento sejam para o Teatro Municipal.
A cultura é uma riqueza desproporcional ao tamanho de Londrina. A cidade produz muito mais cultura do que se espera para uma cidade de 500 mil habitantes. E vale a pena a gente ter um olhar um pouco mais carinhoso para essa área.
Sobre áreas para instalação de novas indústrias, eu acredito mais nas pequenas e médias que nas grandes. Acredito mais neste perfil que é aquele que pode se aproveitar das condições de logísticas que temos.
O Arco Norte é um sonho ou um projeto factível?
Eu acredito no Arco Norte, mas compreendo que ele tem um desafio a ser superado. Porque o Arco Norte, ao contrário do que muita gente imagina, não é apenas uma pista de pouso. O projeto é muito mais ambicioso, mas tem de ser sustentável. E aí, entra o tripé clássico da sustentabilidade: viabilidades econômica, ambiental e social. Então, se não estiver amparado nestes critérios, não vai sair.
O local previsto para o projeto, próximo à Mata dos Godoy, preocupa o senhor do ponto de vista ambiental?
Eu não sei. Sou leigo no assunto. Existe essa percepção inicial de que a proximidade com a Mata dos Godoy é um complicador. Alguém que entende disso terá de falar sobre isso. Não serei eu. Vou ouvir. Se ambientalmente for insustentável lá, evidentemente que não será realizado lá.
O Arco Norte é um equipamento fantástico, que pode gerar um impacto de diferenciação da nossa região em relação a outras, como a ferrovia fez no passado. Disso eu não tenho dúvida.
Do ponto de vista logístico, se não sai o Arco Norte, o que seria uma boa alternativa?
A duplicação da PR-445 até Mauá da Serra, até Curitiba. E a desoneração do escoamento da produção da nossa região que é muito onerada por causa dos pedágios caríssimos. Eles impactam negativamente no processo de industrialização. Mas isso é pouco provável que ocorra. Então, seria importante o governo do Estado implementar uma política tributária regional que fosse inversamente proporcional aos benefícios gerados pela proximidade do porto.
E as finanças do Município?
Elas estão muito ruins. É só ver que foi preciso fazer um processo de Profis (Programa de Recuperação Fiscal). É um esforço de arrecadação para pagar conta. As informações que tivemos é que foram arrecadados R$ 90 milhões e esses R$ 90 milhões estariam sendo consumidos em 60 dias. Isso aponta para um desequilíbrio nas contas. A situação não é boa.

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