Kirchner será 'pitbull' com o Brasil
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2004
Ariel Palacios<br> Agência Estado 
Buenos Aires O governo do presidente Néstor Kirchner terá uma atitude ''canina'' com o Brasil no que concerne às negociações comerciais. Esta postura foi anunciada pelo chanceler Rafael Bielsa, que explicou que, com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a administração Kirchner fará ''cara de perro'' (''cara de cachorro'', expressão utilizada para dizer que, rosnando, manterá firme uma posição). Para completar o quadro da postura argentina, Bielsa deixou claro que a equipe de ''El Pinguino'' (O Pinguim), como é conhecido Kirchner popularmente, ''mostrará os dentes'' ao Brasil.
O chanceler argentino referia-se às duras negociações comerciais que confrontam os dois países e que têm como pivô as exigências de Kirchner de implementar medidas para evitar ''assimetrias'' comerciais dentro do Mercosul. A estrela dessa polêmica bateria de medidas é a aplicação de salvaguardas, medida atualmente proibida no Mercosul.
O governo brasileiro resiste à idéia de aceitar a inclusão desses mecanismos no Mercosul, mas os negociadores argentinos, rosnando, persistem em suas exigências, criando um impasse. As discussões sobre as salvaguardas entraram em um beco sem saída na sexta-feira passada. Por isso, serão retomadas a meados de janeiro de 2005.
No fim de semana, o chanceler Bielsa, um ex-integrante do grupo guerrilheiro cristão-nacionalista Montoneros, afirmou que a Argentina seria ''irredutível'' com o Brasil. Além disso, indicou que não faria esforço algum em ''ser simpático'' com o interlocutor.
Morder e latir O provérbio popular ''Cão que ladre não morde'' não se aplica ao governo Kirchner. O presidente argentino, fiel a seu ''estilo K'' denominação de sua forma direta de agir, sem papas na língua não hesita em transformar-se em um ''pitbull'' na hora de defender a pouco competitiva indústria argentina, sempre que isto possa proporcionar-lhe dividendos na popularidade com o eleitorado.
Kirchner já demonstrou que depois de latir, morde, como fez horas antes do início da reunião de cúpula de Puerto Iguazú, em julho passado, quando anunciou que aplicaria medidas contra uma suposta ''invasão'' de eletrodomésticos Made in Brazil. Na ocasião, negociadores brasileiros, ingenuamente acreditaram que as ameaças não passavam de bravatas que nunca seriam concretizadas. No entanto, dias depois o governo argentino disparava uma série de restrições comerciais aos produtos brasileiros.
Os televisores produzidos na Zona Franca de Manaus foram vítimas da aplicação de uma tarifa de 21,5%. Os fogões foram obrigados a submeter-se a reduzidas cotas para entrar no mercado local. Uma situação similar aconteceu com as geladeiras e máquinas de lavar roupa. A estes, soma-se uma longa lista de outros setores brasileiros que foram obrigados a restringir suas vendas ao mercado argentino, entre os quais os calçados, têxteis e tapetes, além do açúcar.


