Ouro Preto - Depois de muita ameaça, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, entrou e saiu da 27 Reunião de Cúpula do Mercosul sem ter pronunciado a palavra ''salvaguardas'' - mecanismo que prevê a redução de importações para proteger setores frágeis da economia local e se transformou em um foco de tensão dentre Argentina e Brasil. Não quer dizer, porém, que Kirchner não tenha defendido a idéia. ''Devemos ter absolutamente claro que o importante são os objetivos, não os instrumentos'', disse no seu discurso durante a Cúpula, referindo-se à estratégia para fortalecer a integração. ''Os instrumentos podem e devem ser corrigidos quando existem, se são insuficientes ou ineficazes, e devem ser criados onde não existem, para concretizar esses objetivos.'' Kirchner aproveitou para mandar um recado aos defensores da idéia de dar um ''passo atrás'' no Mercosul, com a negociação de acordos comerciais de forma independente entre os países.
''Nenhum de nossos países é por si mesmo nem tão grande nem tão forte para prescindir do destino regional, diante dos fortes ventos que caracterizam a globalização'', defendeu. Para quem ameaçava chegar ao Brasil ''mostrando os dentes'' e fazendo ''cara de cachorro'', até que o presidente argentino defendeu seus interesses de forma elegante. As salvaguardas contam com a oposição não só do Brasil, mas também do Paraguai e do Uruguai.
O governo brasileiro tampouco vai discutir diretamente com os argentinos a outra parte da proposta, que trata de regras de alocação de investimentos dentro do Mercosul. Os vizinhos querem se beneficiar ao menos em parte dos investimentos recebidos pelos outros sócios do bloco.
Cotas - O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, esclareceu que o Brasil não fechou nenhum acordo trocando cotas de eletrodomésticos por cotas de produtos argentinos como vinho, cebola e arroz. Essa versão de um novo acordo foi comentada por funcionários do governo argentino. ''Temos cotas estabelecidas nas negociações com o setor privado, por exemplo em eletrodomésticos e têxtil, mas não há novo acordo'', disse.
Também o assessor especial para Assuntos Internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, informou que salvaguardas não estão sendo consideradas pelo Brasil no momento. ''Acreditamos que é possível encontrar mecanismos mais modernos e eficazes para proteger seja os interesses dos industriais argentinos seja o dos brasileiros.'' Furlan lembrou que, na semana passada, seu secretário-executivo, Márcio Fortes, esteve em Buenos Aires para discutir as alternativas apresentadas pelo Brasil à proposta argentina de adoção de salvaguardas automáticas para proteger setores sensíveis. O Brasil sinaliza com uma política industrial comum e financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Uma nova rodada ocorrerá em janeiro.

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