Uma decisão judicial garantiu ontem a devolução da soja a pelo menos dois produtores que haviam depositado o produto nas unidades da Cooperativa Agropecuária do Vale do Paranapanema, a Campal, com sede em Cornélio Procópio.
Dos 15 produtores que estocavam soja na cooperativa - em grave situação financeira, com salários atrasados e à beira da falência -, sete conseguiram uma medida cautelar inominada após a obtenção de uma liminar concedida pelo juiz Everton Luiz Penter Correa, na tarde de anteontem. A liminar dá direito aos produtores de apreender o produto e recolher o grão nos silos.
Desde sexta-feira, o clima entre os agricultores e a direção da cooperativa está tenso. Eles teriam sido comunicados informalmente sobre a impossibilidade de devolver a soja armazenada, que teria sido vendida para saldar dívidas.
Das unidades da Campal espalhadas na região, apenas a de Sertaneja ainda tinha o produto nos silos. Nem mesmo os produtores sabem dizer se a soja estocada na unidade seria suficiente para ressarcir seus prejuízos. A Folha apurou que os produtores que obtiveram a vitória judicial têm – juntos – cerca de 15 mil sacas a receber. Eles temiam que o volume armazenado não atendesse nem a metade desta demanda. Este seria o principal motivo da não adesão dos oitos produtores (que também armazena soja na Campal) restantes. ‘‘Quem conseguiu a liminar primeiro tem mais chances de ter a devolução total. Os últimos já perderam as esperanças. Eles sabem que a soja não dá nem para a gente. Então, nem adianta conseguir mais a liminar’’, afirmou um dos produtores beneficiados pela decisão judicial, que não quis se identificar.
Às 19 horas, cerca de 20 caminhões ainda permaneciam no pátio da unidade para serem carregados. Dois oficiais de justiça – Paulo Roberto Raimundo e Rogério Azevedo Chaves – acompanharam a operação de devolução, que seria paralisada durante a madrugada e retomada logo pela manhã.
Apesar de alguns dos agricultores lesados demonstrarem grande irritação, a maioria acredita que a Justiça obrigará a cooperativa a arcar com os prejuízos provocados pela venda indevida. Outros, mais céticos, já se conformam com as perdas. ‘‘Consegui a soja de volta. Já tá bom’’, diz Júlio Tamotsu Motunaga, 54 anos, que desde 1982 é cooperado da Coprocafé, encampada pela Campal.
Ontem, após conseguir as 200 sacas armazenadas de volta, ele ainda tinha um problema a resolver: ‘‘Ainda não sei onde vou colocar a carga’’.
Menos conformado, Ahmad Chakib Abdu Hamid, 72 anos, outro que garantiu a devolução ontem, disse que confiou suas 4 mil sacas de soja à cooperativa sem medo e teve ‘‘uma grande decepção’’ quando soube que seu produto tinha sido vendido. Ele pagou a conta de energia elétrica do entreposto, que devia R$ 1,8 mil a Copel. A energia havia sido desligada por falta de pagamento e acarretava total paralisação da unidade. Com a religação na segunda-feira, os maquinários puderam voltar a operar e permitir a operação de transferência da soja dos silos para os caminhões. Hamid também contratou 12 homens para fazer o trabalho, já que entre funcionários administrativos e braçais o entreposto conta com apenas oito pessoas. ‘‘Vou querer que paguem por este prejuízo e por esta decepção’’.

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