Avaliada pelo mercado financeiro como correta, a queda da Selic precisa vir acompanhada de novos cortes para que se inicie o processo de recuperação da economia
Avaliada pelo mercado financeiro como correta, a queda da Selic precisa vir acompanhada de novos cortes para que se inicie o processo de recuperação da economia | Foto: Shutterstock



A redução de 0,75 ponto percentual (pp) na taxa básica de juros, a Selic, foi considerada como correta e benéfica por analistas de mercado e de entidades do setor produtivo, mas deve ter resultado apenas na expectativa de investidores para os próximos meses. Ao chegar aos 13,00%, o indicador de referência representa aproximadamente o dobro da inflação oficial em 12 meses, o que mantém os juros reais em operações de crédito muito altos. Por isso, a expectativa é de que os cortes continuem nos próximos meses para somente então começarem as primeiras sinalizações de recuperação da economia.

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de reduzir a Selic em 0,75 pp na noite de quarta-feira, 11, surpreendeu parte dos economistas. Porém, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2016 em 6,29%, o custo dos financiamentos segue alto e não deve fazer com que os consumidores saiam às compras. Com isso, empresários devem manter a rotina recente de segurar investimentos até que os sinais de reversão da crise fiquem mais claros.

"Qualquer redução de juros é boa porque incentiva o consumo e o investimento. O problema é que a taxa real dos juros está muito elevada e inibe o consumidor e o empresário", diz o economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná. Para ele, somente caso a inflação continue controlada no próximo trimestre, com a promoção de novos cortes na Selic em patamares semelhantes ao desta semana, é que ocorrerá um movimento de aumento na demanda no mercado.

O presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, considera que a economia vive de expectativas, e cortes de juros geram otimismo. O cenário recessivo, no entanto, faz com que a massa de desempregados e endividados mantenha a carteira no bolso. "No consumo, o reflexo é sempre mais demorado, mas gera uma boa perspectiva para os negócios", cita. "O crédito fica mais barato e montadoras podem pensar em buscar financiamentos para reestruturar operações, por exemplo", diz, ao completar que a renegociação de dívidas é importante para empresas neste momento.

E é exatamente a crise que justifica o tamanho do corte de juros, bem como novas decisões do tipo pelo Copom. Antunes acredita que o andamento de medidas de reforma fiscal no Congresso propostas pelo governo federal é outro fator que permite pensar em recuperação da economia a partir do segundo semestre do ano. "A inflação deixou de ser justificativa para os juros altos", diz.

Bancos
O tempo que a redução da taxa básica demora para chegar aos juros dos bancos é outro motivo de preocupação. De acordo com a Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), mesmo que fosse imediato e no mesmo patamar do corte promovido pelo Copom, teria peso mínimo. "Existe um deslocamento muito grande entre a taxa Selic e as taxas de juros cobradas aos consumidores, que na média da pessoa física atingem 156,43% ao ano e provocam uma variação de mais de 1.000% entre as duas pontas", cita o diretor executivo de Estudos e Pesquisas Econômicas do órgão, Miguel José Ribeiro de Oliveira, em relatório sobre o tema.

Conforme simulação da Anefac, a diferença no custo por uma dívida de R$ 3 mil no cartão de crédito rotativo é de R$ 1,80 no final de um ano. O presidente do sindicato dos economistas, por outro lado, afirma que a margem dos bancos é alta no Brasil porque o risco é maior do que em outros países. "Para se recuperar um carro ou imóvel por falta de pagamento aqui é bem mais complicado do que em outros lugares", cita Antunes.

Por outro lado, o Banco do Brasil (BB) anunciou, logo na sequência à decisão do Copom, que reduzirá taxas de juros em várias linhas de crédito para pessoas físicas e jurídicas. No caso do rotativo do cartão de crédito, a diferença é de 4 pp ao mês. Porém, a decisão antecipa mudanças que serão implementadas a partir de abril após exigência do Ministério da Fazenda, que visam acabar com cobranças exorbitantes como a de 453,74% de juros ao ano para o rotativo no País.

Já no cheque especial, o corte do BB foi de 0,09 pp ao mês. A expectativa é que bancos privados sigam a tendência gerada pela instituição pública.

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