Juros provocam migração do dinheiro
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sábado, 08 de novembro de 1997
Oswaldo Petrin 
ArquivoCâmbio irrealProfessor Mologni: críticas à teimosia do Real que matém uma política cambial valorizadaAo analisar ontem as variáveis determinantes no processo de ajuste da economia, através do aumento das taxas de juros pelo Banco Central, o professor Ismael Mologni, de Londrina, admitiu que pode haver uma migração do dinheiro da renda familiar para bens de consumo como alimentos e confecções, por exemplo. A retração do setor de bens de capital e investimentos pode beneficiar outros setores. O deslocamento admitido pelo especialista se expressa na hipótese do cidadão que deixa de adquirir um veículo novo - para fugir das novas taxas de juros - e destina suas reservas para outros bens de menor impacto no seu orçamento. O dinheiro da entrada no pagamento do carro seria pulverizado para outros itens.
Esse recuo no consumo de bens duráveis caracteriza recessão que inibe investimentos produtivos. Juros altos são incompatíveis com investimentos que distribuem renda e geram empregos, conceitua o professor Mologni. Ele disse que o governo tem que encontrar uma forma mais criativa para segurar a inflação sem impor sacrifícios à população.
Taxa bancária Mologni lembrou que no dia 30 de outubro o Certificado de Depósito Interbancário (CDI) estava em 2,26% ao mês, ou 30% ao ano. No dia seguinte, 31, foi para 4,55% ao mês, taxa que, anualizada, chega a 70,56%. Na prática os juros para investimentos produtivos são maiores; essas taxas são o CDI, que o BC paga para os bancos. O empresário, ao tomar dinheiro paga o equivalente ao CDI (que é o custo do dinheiro para o banco) que dá 4,55% ao mês, mais 2% do spread bancário, mais comissão, chegando a 6,5% ao mês.
Não há registro na história econômica de que juros nesta altura tenham ajudado a fazer investimentos. Um juro brutal como este neutraliza inclusive o uso do dinheiro da privatização que poderia alavancar os investimentos.
Apesar de criticar o aumento das taxas de juros, Mologni acha que o governo foi menos imprudente, ao se precaver contra a crise das bolsas. É que entre mexer no câmbio e nos juros, preferiu a segunda opção. Se ele mexe no câmbio fatalmente haveria evasão de recursos, além de sofrer um enorme desgaste que seria a perda de credibilidade do Plano. Credibilidade, hoje, é não ter maxidesvalorização da moeda, define.
No entanto, o professor deixa claro também que a equipe econômica comete erro com relação à variável cambial. Portanto, mexer nos juros, e não no câmbio, para o professor Mologni é uma atitude correta, em cima de uma situação incorreta, de teimosia em manter uma política cambial valorizada.
Economia vulnerável A medida tomada pelo BC - aumento da taxa de juros - se deve à vulnerabilidade das variáveis macroeconômicas notadamente a política cambial. O câmbio está valorizado em 30%, acumulado desde o início do Plano Real. Isto suscita medo de uma dasvalorização. Investidores externos começaram a se preocupar. Para evitar a evasão, o BC aumenta os juros. O preço do aumento é a recessão. A economia estaria menos vulnerável, na opinião de Mologni, se a equipe econômica tivesse feito ajustes no câmbio. Em agosto deste ano, ao ser entrevistado por este jornal e outros veículos, Mologni alertara para o risco de crise nas bolsas que poderia afetar o Brasil. Na oportunidade, ao longo de uma explicação sobre o comportamento das variáveis econômicas sobre o plano de estabilidade do governo, Mologni resumiu: A luz amarela, de alerta, está acesa. Estava certo.
O tratamento ortodoxo, que penaliza a sociedade sem beneficiar as instituições, é conferido à economia pela mesma equipe que no Planto Cruzado, dez anos atrás, permeou as mudanças na economia segundo os princípios heterodoxos. Mologni também observa que o atual tratamento de juros altos e variável cambial valorizada, prejudica a atividade podutiva. Aparentemente, o sacrifício é igual para todos, mas na verdade só os consumidores sofrem porque os governos, neste contexto, são instituições abstratas.


