Joelmir Beting


‘‘O mercado financeiro move-se por expectativas. O problema é que, não raro, as expectativas se descolam da realidade econômica.’’
Paulo Guedes, economista.




Juros na berlinda
Estamos caminhando para uma taxa básica de juros de 7% ao ano _ sonha alto, de passagem por Madri, o presidente Fernando Henrique Cardoso. Com o adendo: quem levanta ou rebaixa os juros não é o governo; é o mercado. Ou as expectativas dos homens que fazem o mercado, diz Paulo Guedes. Que podem ser ‘‘aqueles rapazes de 29 anos de idade que manipulam as bolsas e os fundos em quase todo o mundo’’, nas palavras de Paul Krugman, mês passado, em São Paulo.
Pelo sim, pelo não, o lado produtivo da economia brasileira acredita em nova redução da taxa básica na reunião de amanhã do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central. A TBC recuaria de 23,25% para 22,50%, na aposta da maioria dos analistas financeiros. Executivos do setor industrial torcem por um rasgo maior de ousadia política nos tempos quentes de hoje. A taxa poderia baixar para 21,97%. Esse número ‘‘quebrado’’ passaria a idéia de uma decisão realmente técnica...
Diretor do BC, Francisco Lopes avisou no Estado, domingo, que na redução dos juros o governo deve ir devagar com o andor porque o santo ainda é de barro. Textualmente: ‘‘O Banco Central vai agir com prudência, num ritmo gradual, seguro e responsável. Ser responsável é ir devagar. Necessariamente, o movimento terá de ser lento.’’
Pois a redução dos juros, catapultados pelo ‘‘crash’’ asiático de outubro, tem sido realmente lenta, na base de um décimo de cada vez da taxa cheia. ‘‘O que interessa é o rumo e não o ritmo’’, diz o consultor financeiro Marcos Salinas. Em suaves reduções, a cada 35 dias, podemos emplacar uma TBC de 18% ainda antes da (re)eleição.
Ou será que não? O piso da TBC está sendo calibrado, não pela capacidade de sobrevivência da economia brasileira, mas pela conveniência de atração diuturna da poupança estrangeira. Assim sendo, o mercado que monitora os juros no Brasil não é o de São Paulo ou o do Rio de Janeiro. É o mercado de Nova York, Londres, Frankfurt, Hong Kong e Tóquio.
O problema é que esse tal de ‘‘mercado’’ continua lambendo as botas do Fed, banco central americano. Hoje é o dia. Reunião do Fed, tripulada por Alan Greenspan, decide logo mais entre pombas e falcões. Os primeiros votam pela manutenção das taxas overnight dos fundos federais, em torno de 5,5% ao ano. As pombas do Fed lembram que sete anos de expansão econômica não conseguiram estourar a jaula da inflação - da ordem de 1,5% no acumulado dos últimos 12 meses. Qual é a neura?
Os falcões do Fed - Greenspan é meio pomba e meio falcão - avisam que os salários reais, pela primeira vez em 14 anos, estão crescendo mais que os preços. Isso significa, pela proa da prosperidade americana, o ‘‘iceberg’’ de uma bolha de consumo com direito a uma recarga da inflação. Por enquanto, o mar está calmo e a noite é azul. Irracional
- Alan Greenspan está preocupado menos com a cinzas ainda quentes da inflação domada e mais com a ‘‘irrational exuberance’’ do mercado de ações. Os títulos estão supervalorizados e uma queda em bloco seria algo mais que um simples ‘‘ajuste técnico’’ do mercado. Seria um pânico coletivo.
Contrafogo
- Aumentar juros significa, na lógica do monetarismo enrustido, esfriar o consumo, a produção, o emprego, os lucros, os preços e as bolsas. Uma panacéia que ignora as novas forças da competição e da modernização no desarme da temível inflação de demanda.
Patrimônio
- Greenspan pensa que um ‘‘ajuste técnico’’ das bolsas evitaria um ‘‘crash’’ aterrador lá na frente. Afinal, seis em cada dez americanos têm o pé de meia em ações e fundos de ações. Um terço da poupança familiar oscila diariamente em bolsa.
A reboque
- A redução (ou não) da taxa básica no Brasil, amanhã, também guarda relação com o aumento (ou não) da taxa básica nos Estados Unidos, hoje.

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