Juros impõem cautela a consumidor
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de novembro de 2003
Betânia Rodrigues<br> Reportagem Local 
Pesquisa de preços, compra à vista e pechincha são tradicionais dicas que valem em qualquer época, principalmente, no final do ano. Segundo o economista londrinense Flávio Oliveira dos Santos, os juros praticados pelo mercado não compensam o sacrifício do futuro e podem ser fatais no orçamento doméstico. ''Em certos casos, é melhor esperar o fim das festas e aproveitar as liquidações que, normalmente, acontecem em janeiro'', aconselha.
Na semana passada, pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) feita em São Paulo apontou que as taxas de juros das operações de crédito para pessoa física são as menores desde janeiro de 1995, quando a associação iniciou seu levantamento. A maior redução porcentual foi promovida no Crédito Direto ao Consumidor (CDC) dos bancos, basicamente por conta da queda da taxa de juros para financiamento de automóveis. A taxa média mensal passou de 3,79% para 3,69%.
No cheque especial, os juros passaram de 9,03% para 8,83% ao mês. Já o crediário de lojas registrou redução de 6,32% para 6,19%. Nas três linhas de crédico - CDC, cheque especial e comércio de loja - trata-se do nível mais baixo de juros desde janeiro de 1995.
Considerando-se todas as taxas cobradas nas operações para pessoa física, os juros médios mensais passaram de 8,13% em setembro para 8,02% em outubro. Segundo a Anefac, estas quedas foram provocadas, principalmente, pela redução da Selic - a taxa básica de juros da economia. Em setembro, a taxa estava em 20% ao ano e foi reduzida para 19% em outubro. A queda da Selic neste ano teve início em junho, quando os juros passaram de 26,5% para 26% ao ano.
Apesar da redução das taxas, o economista Flávio dos Santos desaconselha o apelo às instituições de crédito. Para ele, se a dívida é inevitável, o melhor é pedir empréstimo pessoal ao banco e pagar a compra à vista. O conselho é pertinente. Mesmo com a redução dos juros as taxas continuam muito elevadas, segundo a Anefac. Para se ter uma idéia, a taxa média anual de juros para pessoa física está em 152,38%, enquanto a inflação acumulada nos últimos 12 meses, com base no Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), até outubro, está em 13,98%.
A vendedora autônoma e dona de casa Rosamaria Ribeiro Porto nunca compra a prazo e com as economias vai presentear os netos no Natal. O marido vai usar o 13º salário que ganha como aposentado e motorista de ônibus para trocar o carro a gasolina por outro a álcool. De acordo com os demais entrevistados, esta família é uma raridade hoje em dia. Na opinião da auxiliar de produção Lucinéia Matos, pagar um carnê é melhor do que esperar meses para comprar uma mercadoria necessária em casa. Ela não sabe quanto gasta com os juros, mas nunca esquece das prestações.
Para o dentista e cantor Silvio Cesar Soletti, o crédito é fundamental para quem vive financiando compras. ''Eu sou um pouco compulsivo. Antes de terminar de quitar uma prestação já começo outra'', confessa. Segundo ele, o gasto com os juros compensa a satisfação de comprar mais produtos e ainda pagar as despesas rotineiras do mês. A professora aposentada Eunice Biondo Mengato disse que preferiria pagar à vista, mas há sete anos não recebe aumento. ''Meu 13º já foi. Metade retirei no meu aniversário e o restante peguei em setembro para quitar minhas dívidas'', recorda. (Com Agência Estado)


