Juros do cheque especial se aproximam de 300% ao ano
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 
A taxa de juros do cheque especial aumentou 5,3 pontos percentuais desde dezembro e fechou no mês passado em 292,3% ao ano, conforme divulgou ontem o Banco Central (BC). É o maior patamar desde o início da série histórica da instituição, iniciada em 2011. Mesmo diante da manutenção da taxa Selic em 14,25% nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a alta da inadimplência, principalmente entre pequenas e médias empresas, é apontada como causa da variação dos juros.
Na média para pessoa física, a taxa foi de 63,7% ao ano em dezembro para 66,1% em janeiro. Para pessoas jurídicas, aumentou de 29,7% para 31,5%, no mesmo comparativo. A inadimplência, ou quando uma dívida fica atrasada em mais de 90 dias, variou de 6,1% para 6,2% entre os consumidores e de 4,5% para 4,7% entre empresários, de acordo com o BC.
Outra taxa que bate recorde é a de juros rotativos do cartão de crédito, que foi de 431,4% ao ano em dezembro para 439,5% em janeiro. As menores variações foram no crédito direcionado, que são empréstimos com regras definidas pelo governo, basicamente aos setores habitacional, rural e de infraestrutura, e no consignado, descontado na folha de pagamento. Na primeira modalidade, foi de 9,7% a 9,9%, e na outra, de 26,5% para 26,8%.
O chefe do Departamento Econômico do BC, Tulio Maciel, diz que a variação positiva foi motivada pelo risco de crescimento da inadimplência, mais expressivo nas empresas menores. Para famílias, ele considerou a alta "relativamente modesta" em um cenário de crise econômica e maior desemprego. Mesmo assim, Maciel recomenda trocar dívidas com juros maiores por empréstimos de taxas menores. "O crédito rotativo deve ser usado com extrema cautela, em prazo curto de tempo, para que isso não onere o orçamento pessoal", sugere.
Para o professor de economia Sidnei Pereira do Nascimento, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), é preciso prestar atenção ao fato de que a variação da inadimplência é bem menor do que a dos juros bancários. "Em época de crise, as pessoas tendem a usar mais o cheque especial e a explicação que se pode ter é que os bancos buscam elevar a margem de lucro para ter equilíbrio na receita, já que a tomada de crédito é menor."
O professor de economia Joilson Dias, da Universidade Estadual de Maringá (UEM), completa que a diferença, sem o aumento da Selic, torna ótimo o spread, que é a diferença entre as taxas que a financeira paga para manter o dinheiro dos clientes e a que recebe em empréstimos. "Quem precisa pagar fica à mercê dos bancos e isso pode gerar uma inadimplência maior no futuro, porque não tem resultado financeiro que pague 200% de juros ao ano."
Como consequência, ambos consideram que deve ocorrer uma retração ainda maior no comércio, que pode ter reflexo sobre a inflação. "Depende muito de como os empresários veem a menor demanda, porque podem deixar como está porque precisam sobreviver", diz Dias. "É renda que sai do consumo e que aprofunda o quadro recessivo da economia, mas o problema é que boa parte da inflação atual se deve ao reajuste de preços administrados", completa Nascimento.
Operações de crédito
O saldo de todas as operações de crédito concedido pelos bancos caiu 0,6% e ficou em R$ 3,199 trilhões. O valor correspondeu a 53,7% do Produto Interno Bruto (PIB). "Mostrou retração moderada, o que é relativamente comum para os meses de janeiro. Atinge principalmente o crédito às empresas. No início do ano, tem um um ciclo de atividades em ritmo menor do que em outros períodos. Gradativamente isso vai crescendo", diz Maciel. (Com Agência Brasil)



