Juros do cartão no Brasil passam de 320% ao ano
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quarta-feira, 18 de julho de 2012
Mariana Fabre <br>Reportagem Local 
Os juros das operações com cartão de crédito no Brasil são superiores à soma das taxas cobradas em outros seis países da América Latina. Pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) aponta que o consumidor brasileiro que recorre ao crédito rotativo - financiamento por meio do cartão de crédito - paga uma taxa de juros anual de 323,14%, resultado da média de 12,77% ao mês. A somatória da taxa praticada na Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Venezuela e México totaliza 255,27%, quase 80 pontos percentuais abaixo do juro pago pelo consumidor brasileiro.
O juro nacional é 487% maior do que a segunda maior taxa observada entre os países pesquisados, que é de 55% cobrada nas operações feitas no Peru. No Chile, a taxa é de 54,24% e, na sequência, estão os juros praticados na Argentina (50%), México (33,8%), Venezuela (33%) e Colômbia (29,23%).
Na avaliação da Proteste, os juros cobrados nas modalidades do crédito rotativo são uma das principais causas do crescente endividamento dos brasileiros. O levantamento tomou como base os valores cobrados pelos cartões dos seguintes bancos e instituições financeiras: Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, Banco IBI, Banrisul, Caixa Econômica Federal, Citibank, Losango, Panamericano, Banco do Brasil, Banco BMG e BV Financeira.
De acordo com o economista e professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), Marcio Luis Massaro, o motivo do valor significativamente mais alto dos juros nacionais é ''uma pergunta sem resposta''. Apesar de os representantes do setor financeiro alegarem que ela é resultado da elevada inadimplência, Massaro argumenta que esse é apenas um dos componentes da taxa, que também leva em consideração o lucro das instituições financeiras no Brasil.
''A convivência com os juros altos é culturalmente normal para o brasileiro. Estamos iniciando um novo momento econômico e a população deve demorar um pouco para começar a questionar as altas taxas'', acredita o economista. Para Massaro, o cartão de crédito é um produto bancário e, assim como todas as mercadorias, tem o valor balizado pelo mercado.
''Enquanto houver gente disposta a pagar essa taxa de juros, o banco não vai reduzí-la. Somente quando a maior parte da população questionar esse valor é que as instituições podem começar a reduzir para não perder esse produto tão importante'', argumenta. Dessa forma, a redução da taxa Selic não irá interferir no valor cobrado pelas instituições financeiras, segundo o especialista.
O cenário econômico nacional também interfere no valor da taxa. Massaro explica que a capacidade de endividamento da população brasileira está quase esgotada, pois vem sendo utilizada desde 2008, quando o Governo passou a adotar medidas para conter o efeito da crise financeira mundial, como redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) e da taxa Selic. ''O cenário está propício para um futuro calote e os bancos querem vender a preços elevados para garantirem cobertura em um eventual não pagamento das dívidas'', esclarece.
Nesse momento em que o Governo estimula o consumo com taxa básica reduzida e facilidade para aquisição de automóveis e eletrodomésticos da linha branca, o professor orienta que os consumidores tenham cautela, disciplina e responsabilidade ao utilizar o cartão de crédito. ''A princípio, deve-se procurar comprar a vista. Mas caso seja necessário, é preciso ter certeza de que o valor da parcela cabe no orçamento e de que há condições de arcar com a dívida a longo prazo'', afirma.



