Juros do cartão batem novo recorde e chegam a 449,06%
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quinta-feira, 28 de abril de 2016
Nelson Bortolin<br>Reportagem Local 
Apesar de a taxa básica de juros da economia, a Selic, estar estável em 14,25% há dez meses, os juros do rotativo do cartão de crédito para pessoa física bateram recorde em março, chegando a uma média de 449,06% ao ano. São os maiores desde o início da série histórica, em março de 2011. Já a inadimplência do cartão, que poderia justificar a alta, estava numa média de 36,62%, em março, uma das menores do período. Por que o contrassenso?
"É uma questão de mercado. Você tem uma situação econômica muito ruim, com muita gente precisando de crédito e o banco sem vontade de emprestar", afirma o economista e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Marcelo Curado. Segundo ele, a resistência, do ponto de vista dos bancos, não está relacionada ao índice de inadimplência, mas à expectativa de inadimplência. "O banco sente que ela pode aumentar e resolve cobrar mais pelo dinheiro que, no caso do cartão de crédito, é de altíssimo risco", explica.
Questionado se realmente o Brasil tem os maiores juros do mundo, ele afirma não ter dúvida. "Não imagino que possa existir um lugar com taxas mais altas. Seria impraticável", alega. Curado aconselha os consumidores a manterem-se longe do rotativo do cartão de crédito. "O próprio agente financeiro tem alternativas (empréstimos) com taxas mais razoáveis", declara.
Coordenadora da Proteste, Maria Inês Dolci conta que a entidade de defesa dos consumidores já pediu ao Banco Central, no ano passado, que limite os juros dos cartões a até o dobro do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), com revisão anual. A justificativa é que o índice, próximo de 15% ao ano, é o utilizado pelos próprios bancos ao tomarem empréstimos uns dos outros. "Os juros do cartão são escorchantes. E estão batendo recorde no momento em que o consumidor está muito suscetível", afirma. De acordo com ela, a proposta da Proteste ainda está sob análise do BC.
SUSTO
Nas ruas, as pessoas assustam quando são informadas sobre o recorde da taxa. "É muito caro. Eu já usei o limite do cartão, mas foi pouca coisa. Ultimamente quase não estou comprando. Quando compro, é à vista", afirma a comerciante londrinense Sanny Benini Lo. Segundo ela, a situação do País está tão instável que não se deve fazer dívida alguma. "Jesus amado!", reage a aposentada Maria da Conceição dos Santos, quando é informada pela reportagem de que os juros chegaram a 449%. "É um absurdo", reforça ela, que está devendo R$ 200 só de juros no cartão.
Já o porteiro Ricardo José Perrud diz que não tem cartão de crédito em seu nome, mas a mulher tem. "Nós nunca deixamos de pagar o total, que é para a dívida não aumentar e sair do controle", alega. "Os juros são absurdos e nós temos muita responsabilidade na hora de utilizar o cartão", complementa.
Geral
De forma geral, a taxa média de juros das operações de crédito do sistema financeiro, incluindo operações com recursos livres e direcionados, atingiu 32% ao ano em março, também maior patamar da série histórica iniciada em 2011. O crescimento foi de 0,2 ponto porcentual no mês e 6,1 pontos porcentuais em 12 meses. Já a taxa média nos créditos às famílias situou-se em 40,6% ao ano, aumentando 0,7ponto porcentual no mês e 7,3 pontos porcentuais em 12 meses.
No segmento de pessoas jurídicas, a taxa média de juros atingiu 22,2% ao ano, declinando 0,4 ponto porcentual no mês e aumentando 4,1 pontos porcentuais em 12 meses. A redução mensal foi determinada pelas contratações com recursos livres (-0,9 ponto porcentual, para 31% ao ano), destacando-se os empréstimos de capital de giro (-1,1 ponto porcentual) e os financiamentos a exportações (-3,4 pontos porcentuais). No crédito direcionado, a taxa aumentou 0,1 ponto porcentual, para 11,9% ao ano.



