João Caminotto
Agência Estado
O presidente do FleetBoston Global Bank, o brasileiro Henrique de Campos Meirelles, disse ontem, em Davos, que a economia brasileira deve reagir sem sobressaltos a um eventual aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, que pode ser anunciado nesta ou, no máximo, até a próxima semana. ‘‘Um aumento de 0,25% na taxa de juros já foi assimilado pelo mercado e o Brasil não deve ser afetado’’, disse Meirelles.
O presidente do FleetBostan Global Bank afirmou, no entanto, que se o aumento dos juros americanos for maior, de 0,5%, o Brasil poderá sentir os efeitos. ‘‘O País pode dar uma pequena soluçada’’, disse Henrique de Campos Meirelles, que está na Suíça participando do Fórum Econômico Mundial.
Meirelles disse também que acredita que as autoridades norte-americanas conseguirão desaquecer a economia dos Estados Unidos sem grandes solavancos. ‘‘O atual crescimento de 4,5% do PIB norte-americano deve diminuir para 3,5% e eu acho que a condução desse processo será feita de maneira eficiente, sem causar grandes problemas.’’
Segundo Meirelles, a imagem do Brasil no mercado financeiro internacional é ‘‘boa’’. Para os empresários norte-americanos, a maioria dos bancos e setores do governo, ‘‘o Brasil saiu da crise, o clima de pânico acabou’’, infomrou Meirelles, que tem sido consultado por banqueiros e empreendedores sobre a realidade brasileira.
Mas disse que no longo prazo é preciso baixar o que chamou de ‘‘risco Brasil’’. ‘‘O País não vai crescer como deveria, no longo prazo, com a manutenção de altas taxas de juros. O governo precisa adotar reformas que reforcem o mercado de capitais regional e que diminuam a taxa nominal de impostos para estimular as empresas.
É preciso também uma legislaçao mais forte para impor maior transparência às empresas, oferecendo proteção aos acionistas minoritários’’, disse. ‘‘No momento que o Brasil tiver um mercado de capitais sólido, não dependente, atingirá mais prosperidade’’.
Meirelles afirmou que há um ‘‘erro de foco’’ no atual debate sobre a desnacionalizaçao dos bancos brasileiros ancorada no processo de privatização do Banespa. ‘‘Sou totalmente a favor do fortalecimento da empresa nacional.
Mas ela deve procurar se reforçar através de uma forte atuação no mercado doméstico para poder competir. Não precisa de proteção legal, isso é coisa do passado.’’ Meirelles disse que o encontro de Davos foi marcado neste ano por uma ‘‘agenda positiva’’.
‘‘Não houve aquela discussão de onde será a próxima crise, quem será a bola da vez. O que dominou o encontro é o consenso de que a economia mundial, principalmente a norte-americana, atingiu uma prosperidade sem precendentes e que agora chegou o momento de se encontrar maneiras de se espalhar isso para as economias emergentes.
Para Meirelles, o Brasil não está imune a ataques especulativos motivados por crises externas, como a crise asiática de 1998, por exemplo, mas tem uma economia suficientemente sólida para assimiliar ajustes de juros nos Estados Unidos, até porque isto não caracteriza ataque especulativo ao dólar. O forte do Brasil é uma economia bem diversificada, ainda que globalizada, e uma economia informal - fruto da própria crise interna - que protege a economia de boa parte da população. E tem uma boa economia primária.

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