São Paulo - A expansão das vendas do setor imobiliário pode sofrer uma desaceleração neste segundo semestre, impulsionada por um cenário de elevação das taxas de juros dos financiamentos e de maior rigor dos bancos nas concessões de crédito. A avaliação é feita por representantes dos setores da construção e financeiro.
O vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel de Oliveira, avalia que os bancos, que estavam muito agressivos na concessão de crédito imobiliário, começam a tirar o pé do acelerador nesta modalidade de financiamento, por conta das incertezas geradas pela crise norte-americana e os riscos de inflação.
Expectativa semelhante tem o analista da Lopes Filho & Associados, João Augusto Frota Salles, que também avalia que no cenário de incerteza algumas instituições tendem a adotar uma posição mais cautelosa na expansão do crédito imobiliário. Segundo ele, o movimento se mostrará mais evidente entre os bancos privados, que nos últimos anos desenvolveram plataformas para atender a maior clientela possível quando ocorresse o boom do financiamento de imóveis, esperado, inicialmente, para 2009.
  ‘‘Os bancos privados tendem a recuar nesse mercado. O cenário incerto adiou um novo ’boom’ de crédito imobiliário para 2010 ou 2011. Nesse ambiente, quem sinaliza o recuo são os bancos privados’’, afirma Salles.
  De acordo com Salles, bancos que há alguns meses apresentavam estratégias agressivas para conquistar esse mercado, como Santander e HSBC, devem mostrar recuo na concessão desse crédito.
  No entanto, o analista lembra que os bancos privados têm uma participação proporcionalmente pequena no crédito imobiliário total do País e que, por essa razão, essa desaceleração será sentida só na margem. O movimento ficará mais evidente a partir do primeiro trimestre do ano que vem, quando a elevação dos juros reduzir a demanda de forma mais efetiva, o que trará conseqüências para o principal agente financiador desse setor, a Caixa Econômica Federal (CEF).
  Embora com taxas mais baixas do que em outras modalidades de empréstimos, os bancos utilizam esses financiamentos de longo prazo para fidelizar os clientes e, dessa forma, aumentar a venda de produtos a esse público. No entanto, nesse ambiente de incerteza, os bancos tendem a apostar em outras linhas de negócios, que oferecem maior rentabilidade, como o segmento corporate, destinado a empresas de grande porte. Essa estratégia também irá produzir efeito sobre o crédito imobiliário.
  ‘‘A demanda por imóveis ainda não foi impactada pelas recentes altas de juros, mas poderá haver pequena redução no próximo trimestre e principalmente no quarto. As vendas vão crescer, mas menos que no primeiro semes-tre’’, opina um analista, que preferiu não se identificar.
  A analista da Unibanco Corretora, Maria Laura Pessoa, lembra que o crédito imobiliário possui problemas estruturais que precisam ser solucionados para que haja uma aceleração dessas operações. Como exemplo, ela cita a falta de um mercado secundário e o descasamento entre o principal funding do setor (recursos da poupança) e o prazo do financiamento. ‘‘Isso não evoluiu ainda. Além disso, você tem um cenário diferente, com juros subindo, e isso é determinante para a entrada de um consumidor em um financiamento de longo prazo’’, afirma.
  Na avaliação do economista e professor da FGV Online, André Comunale, pode haver diminuição no ritmo de crescimento das vendas de imóveis no fim do ano ou início de 2009, mas sem que haja reversão de tendência. ‘‘O foco do consumidor ainda é a prestação cabendo no orçamento’’, afirma Comunale. Segundo ele, as altas de juros ainda não se refletiram nas vendas mas, se prosseguirem, é possível que sejam repassadas, parcialmente, pelos bancos para os financiamentos imobiliários.

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