Juro nos EUA pesa menos que crise política nacional
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segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
Fábio Galiotto<br>Reportagem Local 

O Federal Reserve (Fed) anunciou na última quarta-feira, 14, o aumento da taxa básica de juros nos Estados Unidos, o que fez com que o dólar se valorizasse nos últimos três dias na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Apesar de a moeda norte-americana ter ganhado força com a decisão do banco central do País, analistas afirmam que terá peso pequeno nos próximos dias por já ter sido absorvida pelo mercado. Para os ouvidos pela FOLHA, a variação dos últimos dias se deve mais pela crise política do governo Michel Temer do que pelos juros dos EUA.
Na prática, o aumento da taxa básica por lá de 0,25 ponto percentual, para uma faixa entre 0,50% e 0,75%, é devido a bons índices de crescimento econômico e da alta da inflação. O resultado é que há uma tendência de que investidores com aplicações em mercados emergentes como o Brasil migrem para os EUA, que têm a economia considerada a mais estável do mundo. Tanto que a desvalorização ocorreu também em outras moedas, como o euro. Porém, como a ameaça de reajuste dos juros existia há meses, já havia sido precificada na Bovespa.
Mesmo assim, o dólar se valorizou nas últimas três sessões, com altas de 0,21%, 1,14% e 0,57%, respectivamente, até fechar em R$ 3,39 na sessão desta sexta-feira, 16. A análise é de que a alta de juros causa um efeito em curto prazo, mas que não se sustentará por muito tempo. Por outro lado, as três delações premiadas de diretores da construtora Odebrecht que citam Temer como beneficiário de propinas e a insegurança causada pela crise política têm sido muito mais prejudiciais à economia nacional.
O economista Roberto Zurcher, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), avalia que o Fed busca evitar um salto grande e sem gargalos na economia, mas que o efeito não é tão grande por aqui. "A influência não é tão grande quanto a perda do grau de investimento do País, por exemplo. Se conseguirmos recuperar nossas contas públicas, a confiança pode voltar."
Zurcher acredita que pode ocorrer aumentos pontuais no custo de insumos e de produtos importados, o que refletirá na inflação brasileira. "Porém, como estamos em recessão e sem uma demanda forte, não deve impactar tanto quanto em outras épocas", diz.
Para o diretor presidente do Instituto Fractal de Análises de Mercado, o economista Celso Grisi, existe a preocupação nos EUA de não fortalecer tanto o dólar, para evitar a perda de competitividade das exportações. "Para o curto prazo, não há preocupação, mas se virar uma tendência, com novas altas, isso motivaria a migração de capitais para lá", sugere. Algo que está no horizonte do Fed, que anunciou três altas de juros previstas para 2017, ante previsão anterior de dois aumentos.
Grisi considera que a desvalorização do real, no momento, deve-se mais ao governo e não deve ter tanto peso sobre a inflação. "É conjuntural. É a instabilidade política que levou o investidor a recuar no Brasil, diz.
EFEITOS SECUNDÁRIOS
Outro temor é se a migração de aplicações financeiras para os EUA não forçariam o Banco Central (BC) do Brasil a manter a taxa Selic alta, para compensar a menor estabilidade no cenário nacional. Algo que o presidente do Sindicato dos Economistas de Londrina, Ronaldo Antunes, vê como improvável por atrasar a recuperação do País. "O grande motivo para se mexer nos juros no Brasil é a inflação, que deu uma arrefecida, principalmente em serviços. Temos uma retração econômica muito grande neste ano e já se fala em queda do PIB de 5%, o que faz com que o BC repense a taxa", diz. Ele prevê ainda um possível novo reajuste de combustíveis pela Petrobras, devido à variação cambial.
Pelo lado das exportações, a análise é de melhores rumos em 2017. "O aumento do PIB nos EUA deve superar 2%, o que é bastante para uma economia madura. E, se eles crescem, vão demandar mais produtos importados do mundo inteiro, o que pode ser uma oportunidade para o Brasil", conta o economista da Fiep.
Grisi, contudo, pede atenção principalmente para os exportadores de commodities. "Quem vai exportar deve aproveitar o momento com mais intensidade para garantir um patamar mínimo de preços."


