O Banco Central (BC) decidiu ontem manter inalterada a taxa de juros de 16,5% ao ano. O Comitê de Política Monetária do BC, que reúne todos os diretores da instituição, manteve a tendência de neutralidade dos juros, o que quer dizer que a taxa não poderá ser alterada até a próxima reunião do comitê, marcada para os dias 19 e 20 de setembro.
Essa decisão interrompe a trajetória de queda dos juros que vinha sendo posta em prática pelo BC nos dois últimos meses. Desde junho, os juros haviam caído dois pontos porcentuais.
O diretor de Política Econômica do BC, Luiz Fernando Figueiredo, disse que a decisão foi tomada porque o BC quer ‘‘avaliar o impacto dos últimos indicadores na trajetória futura da inflação’’. Isso quer dizer que o BC acabou optando por uma posição mais conservadora até ter certeza de que a inflação, que no último mês bateu o recorde do ano, vai mesmo cair, que a alta do preço internacional do petróleo será passageira e que a crise na Argentina não terá desdobramentos.
O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica da Universidade de São Paulo (Fipe) medido na segunda quadrissemana de agosto, por exemplo, ficou em 1,87%, um porcentual ainda elevado.
De acordo com os analistas de mercado, a decisão deverá ser bem recebida, uma vez que a tendência de redução dos juros se mantém para os próximos meses, o que garante o otimismo no mercado, apesar do conservadorismo do BC na reunião de hoje. Além disso, o mercado já vinha trabalhando com a possibilidade de o BC não mexer na taxa este mês.
O economista-chefe do Banco Santos, Rogério Mori, lembra que a manutenção dos juros em 16,5% não terá impacto forte sobre o mercado, pois as apostas têm se concentrado num horizonte mais longo. ‘‘Os contratos futuros mais líquidos hoje são os que vencem em abril do ano que vem, o que quer dizer que o mercado está posicionado para uma redução dos juros de olho num prazo mais longo’’, explica Mori, ‘‘Haverá uma correção na curva dos juros, com uma queda mais lenta, mas a tendência se mantém’’, analisou.
O economista Roberto Padovani, apostava na decisão mais conservadora do Copom, principalmente por causa da inflação. ‘‘A incorporação das projeções mais altas de inflação em julho e agosto ao modelo do BC consumiu boa parte da gordura que havia para redução dos juros’’, explica. Além disso, o aumento no preço internacional do petróleo eleva as incertezas internas em relação ao comportamento futuro dos juros. ‘‘São variáveis de curto prazo que causam constrangimento à redução dos juros’’, disse Padovani.
A decisão do Copom foi bem recebida pelo mercado, mesmo que hoje possa haver uma reação de alta nos juros, para corrigir posições. ‘‘Pode haver um pouco de devolução de prêmio, mas nada substancial’’, prevê um operador. ‘‘A decisão do Copom pode não ter sido a preferida, mas é cabível’’, comentou outro. A interpretação dos analistas é de que o comitê preferiu a cautela e vai observar o comportamento da inflação, cujos índices vêm superando todas as estimativas, embora este seja considerado um fenômeno sazonal e ainda não ameace as metas traçadas para o ano.

mockup