O primeiro-ministro da França, Lionel Jospin, disse ontem, depois de se reunir com o presidente Fernando Henrique Cardoso, que a França vai continuar defendendo os interesses de seus agricultores e o Brasil deveria parar de focar o processo de associação entre o Mercosul e a União Européia apenas no comércio agrícola. ‘‘É legítimo defendermos nossa agricultura’’, disse. Ele afirmou ainda que a França não está assumindo uma atitude de ‘‘medo’’ de negociar agricultura e o Brasil não deve conservar uma imagem ‘‘esteriotipada’’ sobre essa questão na França.
Jospin não deu nenhuma indicação de que as discussões sobre maior acesso ao mercado europeu para produtos agrícolas ganhariam um novo ritmo depois da visita. ‘‘Combinamos que as negociações seriam globais, incluindo indústrias, serviços e barreiras tarifárias e não-tarifárias’’, disse o ministro francês.
Sobre o atraso das negociações entre o Mercosul e a União Européia com relação à formação da Àrea de Livre Comércio das Américas (Alca), conforme declarações de Fernando Henrique, Jospin afirmou que o mundo globalizado só pode ser negociado entre vários países. ‘‘O mundo é complexo demais para ser negociado na base da unilateralidade.’’ Ele lembrou que, apesar das barreiras e subsídios praticados na Europa, a União Européia compra mais produtos agrícolas do Brasil do que os Estados Unidos. No ano passado, o Brasil exportou US$ 7,857 bilhões em agronegócios para a União Européia e US$ 3,499 bilhões para os Estados Unidos.
Depois da entrevista, o presidente e o primeiro-ministro conversaram sobre a Embraer. O grupo francês Dssault, presente na comitiva de 30 empresários que acompanhava Jospin, possui 20% das ações da Embraer e está negociando com a empresa um projeto que prevê a fabricação de aviões franceses tipo Mirage 2000.
O governo brasileiro e o governo francês possuem posições semelhantes sobre vários assuntos, conforme afirmou Jospin, como a democratização das patentes de medicamentos, para garantir o acesso da população carente a remédios. Ele elogiou o trabalho do governo brasileiro no combate à Aids e manifestou apoio ao Brasil sobre a prerrogativa do governo de entregar patentes de medicamentos a outros fabricantes em caso de necessidade social. Os Estados Unidos travam uma disputa na OMC contra a Lei de Patentes brasileiras, por causa do artigo que garante esse mecanismo.
A vista de Jospin resultou na assinatura de 20 novos acordos de cooperação entre os dois países nas áreas cultural, de educação e tecnologia, além do acordo para construção de uma ponte de 380 metros entre Macapá, no Amapá, e Cayena, na Guiana Francesa, cujo custo, entre US$ 20 e US$ 25 milhões, será dividido entre os dois países.

mockup