José Roberto Whitaker Penteado
O que dizem de nós
O que falta - afinal - para o Brasil ser considerado um país sério pela comunidade informal das nações desenvolvidas?
A julgar pela última edição de The Economist - que dedica mais uma vez sua matéria de capa ao nosso continente - as condições de admissão ao clube passam pela resolução de alguns problemas nossos que são comuns aos nossos vizinhos. Vejamos:
O seminário inglês reconhece que existe alguma vida inteligente - e competente - nas tecnocracias que, hoje, dirigem os destinos das nações latino-americanas, em substituição ao estamento oligárquico-militar que nos tutelou durante anos. Mas observa: A maioria dos órgãos da administração pública no continente são ainda verdadeiras áreas de calamidade pública, rechecadas de funcionários e vazias de competência.
Para poder produzir riquezas, os empresários - e, em especial, os que se querem tornar empresários - precisam enfrentar verdadeiras redes de burocracia e procrastinação - prossegue o editorial do Economist, observando que o suborno continua sendo a única forma de sair desse deliberado labirinto.
O excesso de regulamentação trabalhista, hoje, é para as pessoas físicas, um fator de desemprego e, para as empresas, uma reação em cadeia de custos aparentemente sem fim.
A solução possível de um judiciário capaz de resolver os problemas causados em outras áreas, de forma honesta rápida e transparente, continua longe de se concretizar.
Isso fez com que, em nosso continente, os contratos tenham pouco valor e as empresas tenham de escolher entre a longa espera por decisões que nunca saem e, de novo, os atalhos perversos da corrupção e do suborno.
A privatização pode ser uma parte da solução, admite a revista. Mas, na maioria dos países, ele deverá concentrar-se em áreas mais rentáveis, como as telecomunicações e os transportes. Os governos terão de continuar cuidando de educação, saúde e saneamento e, para isso, o caminho deve ser a descentralização - acompanhada de fiscalização.
No caso do Brasil - citado especificamente - nossa recente Constituição é criticada, como lei que legitima, na prática, as ineficiências burocrática e fiscal e encoraja a anarquia na organização partidária.
Nesse julgamento tão severo, despontam a liberdade de imprensa e os mecanismos de eleições razoavelmente livres de fraudes como fatores responsáveis pelos sucessos obtidos - conquanto ainda modestos.
The Economist adverte, contudo que a tarefa mais complicada de todas, nesses países - que tentam combinar práticas democráticas com as regras de mercado - consiste em construir ou sustentar a confiança nas instituições. Como justificar o processo de privatização, se o que se criam são nosos monopólios, presenteados aos parentes e aos amigos dos políticos?
A revista pondera que, em todo o mundo, mesmo nos países desenvolvidos, ninguém acredita mais na pureza do jogo político. Mas as coisas não precisam ser feitas, assim, com tanta impunidade.
Muito disso parece hipocrisia. E é. Mas são, também, observações valiosas, que definem as regras do jogo como são interpretadas pelos que atualmente dão as cartas e controlam a banca.
O que irrita particularmente contudo, nessa análise da revista inglesa, é a obviedade. Com pequenas modificações aqui e ali, será que alguém ainda põe em dúvida esse diagnóstico dos nossos problemas, tão absoluta e completamente solucionáveis?
Quer dizer, alguém além dos nossos políticos - nas mãos de quem, infelizmente, colocamos o poder de decisão para resolvê-los...?
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.





