Arquivo FolhaDesabafoO senador José Eduardo de Andrade Vieira: ‘‘O Banco Central vendeu o Bamerindus para o grupo inglês sem me dar a mínima explicação. Só tomei conhecimento dois dias antes do desfecho’’O senador José Eduardo de Andrade Vieira antecipou ontem à Folha que há dois pontos sem resposta na decretação de intervenção do Bamerindus pelo Banco Central e consequente transferência do controle acionário da instituição para o Hong Kong and Shangai Bank Corporation (HSBC). Primeiro, que o Banco Central mandava os vários interessados na compra do Bamerindus tratarem do assunto diretamente com ele, presidente licenciado. O segundo ponto diz respeito ao sigilo que cercou a negociação direta do Banco Central com o HSBC, da qual ele só tomou conhecimento dois dias antes do desfecho.
‘‘Todos os interessados que procuraram o Banco Central eram orientados a falar comigo’’, comparou. José Eduardo disse que quando passou a se envolver diretamente na solução da crise do banco, ele mesmo procurou o Hong Kong Bank ‘‘por ser nosso sócio, e seus dirigentes foram taxativos em afirmar que não havia interesse’’.
Entre outubro e novembro do ano passado, o Hong Kong Bank foi procurado por Pedro Malan, numa viagem que o ministro da Fazenda fez a Londres, e começou uma negociação que culminou na intervenção de quarta-feira. ‘‘O Banco Central vendeu o banco para eles sem me dar a mínima explicação’’, afirmou.
José Eduardo disse desconhecer em que condições se deu a transferência do controle do Bamerindus e acredita que só vai tomar conhecimento dos detalhes da operação ‘‘ao longo do tempo’’. O senador e ex-ministro da Agricultura não garante, mas também não descarta que o Banco Central tenha concedido privilégios ao Hong Kong Bank para que a instituição inglesa assumisse o Bamerindus. ‘‘Desde o final de 95, quando começou a crise no Bamerindus, eu vinha conversando com o Hong Kong e cheguei até a oferecer o controle a eles, mas nunca houve interesse da outra parte’’, revelou.
O senador disse que nas negociações com os demais interessados o Banco Central sempre negou qualquer apoio. E completou afirmando que não é apenas ele, ‘‘mas o Brasil, os correntistas e os acionistas que sempre respaldaram a credibilidade do banco, que estão precisando de uma explicação’’.
O presidente licenciado do Bamerindus também considera estranho o sigilo que cercou a operação de intervenção e transferência do Bamerindus ao HSBC. ‘‘Com o Hong Kong não vazou nenhuma notícia para a imprensa, e as negociações se estenderam por dezembro, janeiro, fevereiro e março. Mas quando as negociações de outros interessados eram comigo, vazava tudo’’.
O senador apontou os vazamentos das reuniões com a União de Bancos Suíços, Safra, Graphus e a venda da Carteira Imobiliária para a Caixa Econômica. Ele disse que atualmente vinha negociando com novo grupo que ofereceria condições favoráveis ao Brasil, mas o Banco Central não quis sequer saber da proposta.
José Eduardo falou à Folha por telefone e antecipou que na segunda-feira retomará as funções de senador, deixando para os diretores do Bamerindus o acompanhamento do processo de intervenção junto ao Banco Central.

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