José Arthur Denot Medeiros, novo embaixador na Alemanha
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2002
Brasília, Berlim & Cia. 
A constituição de blocos econômicos produz traumas culturais bem maiores que os choques políticos e os atritos comerciais.
Em janeiro de 1990, em Praga, o líder checo Vaclav Havel me disse em seu gabinete: Nossa abertura vai muito bem. Infelizmente, porém, não temos uma Checoslováquia Ocidental para nos ajudar.
Ele se referia ao plano de Bonn de injetar na já então anexada Alemanha Oriental nada menos de meio trilhão de dólares nesta primeira década de reunificação.
Em São Paulo, quarta-feira, o chanceler alemão Gerhard Schroeder revelou que a transfusão de capitais públicos e privados da opulenta República Federal da Alemanha para a obsoleta República Democrática Alemã totalizou, até aqui, US$ 420 bilhões. Dos quais, cerca de 80% em projetos de infra-estrutura econômica: energia, transportes, telecomunicações, saneamento, reurbanização e reparação ambiental.
Ora, considerando-se que o lado oriental hospeda um alemão em cada cinco, a transferência de recursos dessa magnitude foi realmente um estouro, quase igualando o que havia sido então prometido pelo onírico Helmut Kohl.
A Alemanha pretende ir mais fundo no Leste Europeu. Ela lidera, dentro da União Européia, o movimento pela inclusão de sete ex-satélites soviéticos ao bloco econômico ocidental. Em geopolítica, seria esta a prioridade de Berlim, refeita sede do governo alemão.
A segunda empreitada estaria, Brasil à frente, na América Latina. O governo Schroeder já deixou de namorar o planeta China.
Os alemães têm pressa. Eles correm contra a contagem regressiva da Alca e buscam disputar novos espaços pós-ofensiva da Espanha e Portugal cá por estas bandas. Claro, capitais privados das transnacionais germânicas aqui já instaladas. A dólar histórico, os investimentos alemães no Brasil ficaram pela casa dos US$ 13 bilhões.
Até 1994, quando o ingresso de capitais produtivos de todas as bandeiras não chegou a US$ 1 bilhão por ano, o bloco alemão respondia por 14% do estoque externo total, perdendo apenas para os americanos, com 26%.
De lá para cá, a transfusão global simplesmente duplicou em sete anos todo o ingresso acumulado desde o século 19 (a dólar médio de 2001). Nessa invasão, a Alemanha se deixou atropelar pela Espanha, Holanda e França. E corre o risco de ser ultrapassada, até 2003, também pela Grã-Bretanha. A fatia alemã no estoque total formado até 2001, segundo a Sobeet, não passa de 2,2%.
Secos & Molhados
Balança
- O encolhimento da parceria alemã deu-se igualmente no comércio exterior. O superávit ainda é dela, mas nas exportações brasileiras a Alemanha figura em 4º lugar, atrás dos Estados Unidos, Argentina e Holanda. Nas nossas importações, aparece em terceiro, na poeira dos Estados Unidos e da Argentina (que recuou 43% no ano passado).
Nova onda
- Para o embaixador brasileiro em Berlim, Roberto Abdenur, os alemães estão de novo de olho gordo no Brasil. Eles querem fixar posições na futura Alca a partir do Brasil e do México. Roberto Abdenur vai trocar a Alemanha pela Áustria, agora em março. Para Berlim, segue o novo embaixador Denot Medeiros.
Marcha lenta
- Em 2001, o PIB alemão, terceiro do mundo, cresceu apenas 0,8% para uma expectativa anterior de até 2,8%. Para 2002, ano de eleições federais em setembro, o governo aposta em reaceleração para 2%.


