''Não há solução técnica para problemas políticos. Não há solução política para problemas técnicos.''

Juliano Bastide, sociólogo

Juros já politizados
A reorientação da política monetária, há um quarto de século a serviço do crédito bancário mais curto e mais caro do mundo, não deixa de ser uma decisão política, na percepção do empresário José Alencar, que está vice-presidente da República.

Por uma simples e boa razão: a política monetária que sufoca a economia brasileira resulta de uma terapia econômica feita de privação e renúncia, aviada por um diagnóstico equivocado da inflação verde-amarela. Logo, ou se faz a correção técnica ou se apela para uma solução política.

José Alencar reafirma que não se pode combater inflação de custos com aumento de juros - que na economia real funcionam como custos de produção repassados para preços de consumo. Ou ainda: juros no alto inflacionam os custos de rolagem da dívida pública que financia o déficit público. A tal ponto que já é mais o déficit que contrata a dívida; agora é a dívida que realimenta o déficit.

Claro que causa arrepio a idéia de uma decisão política sobre matéria técnica - ainda que a gestão desta última esteja tecnicamente equivocada. Todo problema técnico exige, necessariamente, uma solução técnica. Até porque temos de preservar a autonomia operacional do Banco Central no interior do conflito de interesses que estiola todo governo democrático em qualquer tempo ou lugar.

O governo Lula não é exceção. Que o diga o próprio PT, já devidamente apedrejado pelos seus próprios órfãos da oposição. Exceção é o arrocho monetário sem paralelo no mundo. Aí, um dos dois deve estar errado: ou o Brasil ou o mundo.

Única certeza: a questão dos juros já está estrepitosamente politizada por iniciativa do próprio governo Lula. O que pode levar o Banco Central, daqui a duas semanas, a responder a toda essa pressão política com uma penada política surrealista: a) se baixar a Selic, é porque cedeu à pressão política; b) se não baixar a Selic, é porque, técnica de lado, não se sujeita à pressão política.

Em certa medida, foi o que já se viu na reunião dos juros duas semanas atrás. Havia condição técnica, sim, para devolver o peixe ao rio. Ocorre que, politicamente sitiado, o Copom optou pela manutenção da Selic, sem adoção do viés de baixa. Na lateral, o Banco Central cuidou de desconversar sobre a alternativa refrescante de uma redução nos recolhimentos compulsórios (hoje de 68% dos depósitos bancários).

Resumo da ópera: na política monetária, o governo Lula não admite a politização, já tendo politizado tudo. Desde quando um chefe de Estado discute juros ou discute câmbio em portão de fábrica, em usina de açúcar ou em corredor de avião?

Secos & Molhados

Promessa
O Brasil inteiro clama, não é de hoje, por uma distensão monitorada do arrocho monetário e do garrote tributário. O próprio Lula ganhou a eleição, em quarta tentativa, porque, na percepção coletiva, estava comprometido com isso. Sim, ao prometer 10 milhões de novos empregos em quatro anos.

Cobrança
Toda promessa eleitoral implica cobrança política. Tanto mais porque Lula sobrara na arena como único político com credibilidade para arriscar-se em promessas de palanque. Compete ao próprio governo Lula não mais fazer circular como promessa o que não passaria de bravata.

Sem tempo
Pois bem. Não se pode consertar em cinco meses um estrago de cinco décadas. A cobrança agora seria precoce e injusta. Ocorre que não se deve confundir Palácio com palanque. Caso do último lançamento palaciano: o iminente ''espetáculo de crescimento''. Com juros no alto e tributos em alta.


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