Rio de Janeiro e São Paulo - As paralisações para os jogos brasileiros na Copa do Mundo e os estoques elevados derrubaram em 1% a produção industrial em junho em relação a maio, como revelou ontem o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O resultado veio dentro do intervalo das estimativas dos analistas consultados pelo AE Projeções, que variavam de uma queda de 1,90% à estabilidade. Mas, na comparação com junho do ano passado, a produção da indústria aumentou 11,1%. No primeiro semestre, a indústria acumulou uma expansão de 16,2%, o melhor resultado semestral da série histórica iniciada há 20 anos.
O economista da coordenação de indústria do IBGE, André Macedo, disse que os dados de junho confirmam uma perda de ritmo na atividade do setor industrial no segundo trimestre, após resultados tão elevados, no primeiro trimestre, que levaram o setor ao patamar recorde de produção em março. Em junho, o nível de produção já estava 2% abaixo do recorde, mas os resultados comparativos a iguais períodos do ano passado ainda mostravam vigor.
De acordo com Macedo, o resultado de junho foi negativamente influenciado pela realização da Copa do Mundo, já que três dos quatro jogos do Brasil no torneio esportivo ocorreram em dias úteis, afetando a produção. Além disso, segundo ele, dados divulgados em sondagens e pesquisas de outras instituições mostram ''níveis indesejados de estoques em alguns segmentos, o que também pode estar afetando o ritmo da atividade da indústria''.
Os principais tombos no mês foram registrados na produção de bens de consumo duráveis (automóveis, eletrodomésticos) e bens de capital, que sinalizam o desempenho dos investimentos. Os duráveis apresentaram uma queda de 3,2% ante o mês anterior. Segundo Macedo, o recuo reflete, sobretudo, os resultados negativos na produção de televisores e automóveis.
De acordo com Macedo, a produção de duráveis foi negativamente afetada pela realização da Copa do Mundo. ''Essas paralisações para os jogos afetam mais a produção de bens finais do que bens de produção contínua, como os intermediários (siderurgia, celulose e outros)'', disse.
A queda de 2,1% na produção de bens de capital em junho ante maio, o primeiro resultado negativo ante o mês anterior após 14 meses consecutivos de expansão dessa categoria, pode significar, segundo Macedo, uma ''acomodação natural''. Para ele, ''o desempenho dessa categoria é favorável mesmo com essa queda ante mês anterior''.
Tendência
O economista-chefe da consultoria de investimentos Lopes Filho & Associados, Julio Hegedus Netto, avalia que, depois da expansão de 16,2% no primeiro semestre do ano, a produção industrial deve perder velocidade no semestre seguinte. Hegedus Netto projeta que o crescimento da produção industrial deve ficar entre 10% e 11% no segundo semestre do ano.
O analista ponderou que os dados da produção industrial em maio e em junho sinalizam que a tendência da atividade econômica brasileira é de acomodação no segundo trimestre do ano. ''A tendência é que fique em patamar de alta, mas não no ritmo em que esteve no primeiro trimestre. Um crescimento de 9% do PIB (comparação do primeiro trimestre de 2010 ante período semelhante em 2009) não é normal e não é sustentável'', afirmou.
No segundo semestre deste ano, Hegedus Netto observou que a base de comparação para a produção industrial será ''enviesada''. A razão disso, explica ele, deriva do fato de que as medidas de estímulo anunciadas pelo governo fizeram com que a indústria se reaquecesse em 2009, ficando ''bem mais forte no segundo semestre do que no primeiro semestre'' daquele ano.

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