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. | Foto: Gustavo Carneiro - Grupo Folha

Ídolo do Manchester United nos anos 60 e 70, o finado atacante norte-irlandês George Best é autor de uma frase que ilustra a mentalidade de jogadores de futebol durante a aurora do profissionalismo e dos polpudos salários: "Gastei muito dinheiro com mulheres, bebidas e carros rápidos. O restante, desperdicei". As décadas se passaram e muitos craques com carreiras milionárias seguiram a receita do britânico, para chegar à precoce aposentadoria imposta pela atividade com uma mão na frente e outra atrás. As novas gerações, porém, aprenderam a lição e passaram a escalar consultores financeiros para cuidar do próprio futuro.

Os assessores de investimentos muitas vezes cuidam até mesmo das despesas pessoais dos jogadores, organizam mudanças de cidade ou país em caso de novas propostas e funcionam como escudo para as recorrentes propostas de grandes negócios. Na maioria das vezes, porém, a preocupação é mesmo com a manutenção de uma renda mensal para quando o cliente pendurar as chuteiras. "O perfil do jogador de futebol é peculiar. Depois dos 30 anos ele começa a pensar em parar de trabalhar, mas a maioria vem de família humilde e não tem educação financeira para se organizar", diz o planejador financeiro João Botosso, do Youp Financial Group.

Com a ressalva de que um percentual pequeno de jogadores chega a ter um contrato milionário como jogador, o consultor lembra que a carreira profissional que dura aproximadamente dos 20 aos 35 anos pode nem mesmo durar tanto. "É preciso fazer uma gestão de riscos para a carreira, porque um problema de saúde pode deixar a situação de toda a família descoberta", conta Botosso.

Existem complicações adicionais. Quando vem de família mais pobre, é comum que o jogador queira dar mais conforto a familiares ou receba propostas de negócios de parentes. "Infelizmente, quando a pessoa recebe muito bem, ela acha que pode gastar que sempre ganhará mais. Não é assim. E dar uma orientação, uma opinião pode gerar inimizade", diz o diretor da Método Investimentos, Hélio Augusto Lot. Por isso, ele prefere conscientizar os clientes sobre a necessidade de poupar ao menos 30% e trabalhar com o que lhe dão em mãos.

Sócio da Bravus (escritório credenciado da XP Investimentos em Londrina), Gabriel Vansolini Soldado diz que não são poucas as histórias de jogadores que acabaram na pobreza, mas que a mentalidade mudou. "O objetivo do assessor de investimentos é também educar. Mostramos que guardar na poupança não gera patrimônio assim como não é essencial ter um carro de R$ 1,5 milhão, o que é bem aceito porque as pessoas estão mais espertas e passou um pouco o tempo de gastar o salário em uma noitada", diz

Consciência

Aos 39 anos, o ex-zagueiro londrinense Emílson Cribari, com carreira construída principalmente em times italianos como a Lazio e a Udinese, saiu do País ainda aos 18 anos e sempre se preocupou com as finanças. "Tinha ideias bem claras por ter estrutura familiar positiva. Meus pais sempre foram empresários e sempre me ensinaram que não podemos gastar mais do que ganhamos", conta.

Com o primeiro contrato profissional, foi orientado pela mãe a comprar um apartamento. Foi ela que geriu inicialmente o dinheiro de Cribari, que posteriormente contratou o cunhado formado em economia, Hélio Augusto Lot, para a função. "Eu passava o dinheiro em moeda para ele, para investir da melhor maneira possível e com baixo risco", diz.

Para Cribari, o apoio familiar foi importante, o que ele reconhece que muitos colegas de profissão não tiveram. "O jogador muitas vezes confia em quem não deve, faz investimentos que acabam não valendo a pena, então família é importante."

A preocupação com a aposentadoria aumentou somente a partir dos 30 anos, mas o ex-jogador afirma que ter poupado desde cedo permitiu que alcançasse uma situação confortável. Ele é hoje dono de uma propriedade rural de 18 alqueires, onde mantém uma granja com 52 mil galinhas, imóveis alugados, investimentos e uma escolinha de futebol com 180 alunos. "A escolinha de futebol me dá muita satisfação e pouco retorno, mas é algo que faço pelo bem para as pessoas, de dividir com as crianças a minha experiência, e que tenho condição pelo que construí", conta Cribari.

Ainda em atividade, o meia londrinense Renan Foguinho, 29, também tem a consultoria financeira da Bravus. "Sempre procurei ler e assistir muitos vídeos sobre o assunto, achava que poderia fazer sozinho, mas depois vi que que ia precisar de profissionais capacitados", diz.

O meia se diz controlado e que teve exemplos de atletas que viviam de aparências com altos salários e outros que recebiam menos, mas tinham mais conforto. Porém, diz que prefere não usar a palavra aposentadoria pelo conceito que carrega ao se planejar para o futuro. "Costumo dizer que não é uma aposentadoria, que é uma fase, até porque ainda estarei novo para parar de trabalhar", cita. "Vai haver uma troca de profissão, mas é claro que é necessário estar preparado para essa mudança drástica na vida", completa Foguinho, que acredita que há dificuldades em se aprender uma nova profissão.

Planejamento é para todos

O planejador financeiro João Botosso afirma que o jogador que tem salários mais baixos, apesar de muitas vezes achar que investimentos financeiros não são para ele, é o que mais precisa se organizar. "A imensa maioria não ganha tanto dinheiro, mas o planejamento é para todos, mesmo que o salário seja de R$ 5 mil mensais."

Botosso defende que a orientação não seja somente sobre investimentos e inclua uma análise comum a todos os clientes de consultorias. "É preciso entender os objetivos dos clientes, qual o objetivo de se construir a reserva, se é para aposentadoria, o que planeja para os filhos... Depois, tem de ver se o perfil dele é arrojado ou conservador, e partir daí."

O diretor da Método, Hélio Lot, complementa que o modelo é o mesmo para um empresário ou trabalhador que deseja se organizar para o futuro. "É poupar 30% do que ganha. Se for uma grande quantia, pode-se alocar em investimentos sólidos, imóveis e até em um negócio."

Sócio da Bravus, Gabriel Vansolini Soldado afirma que a assessoria financeira permite também diversos benefícios que o cliente nem sempre sabe como funcionam. "Se o jogador joga lá fora, o custo é lá fora e ele pode colocar os recursos em fundos offshore. Em outros casos, quando é muito dinheiro, a assessoria criar até fundos exclusivos de investimento para o cliente, que permite proteção patrimonial até diante de problemas judiciais", explica.

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