Há quatro meses, um grupo discreto, mas carregado de histórias fortes, se reúne semanalmente no Centro de Londrina para enfrentar um problema que cresce em silêncio. As reuniões do JA (Jogadores Anônimos) acontecem no segundo andar da área administrativa da Paróquia Sagrados Corações. O serviço gratuito têm atraído pessoas de diferentes idades, profissões e cidades da região, todas marcadas pelo mesmo ponto em comum: o jogo deixou de ser diversão e passou a controlar a vida.

O grupo de Londrina surgiu da dor de um pai que viu o filho acumular perdas com apostas, especialmente nas plataformas digitais. Ele buscou apoio, encontrou outras pessoas na mesma situação e decidiu organizar o JA na cidade. Hoje são cerca de 40 membros, entre jogadores e familiares. A iniciativa se soma a outras unidades no Paraná, como Maringá, Curitiba e, mais recentemente, Guarapuava. A sede nacional fica no Rio de Janeiro.

As noites de terça-feira são divididas em dois momentos. Em uma sala, ficam os jogadores; em outra, os familiares, no grupo chamado Jog-Anon. A separação é considerada fundamental no processo de recuperação. No fim, os dois grupos se encontram e compartilham reflexões. A regra é clara e respeitada: o que é dito ali não sai dali.

Imagem ilustrativa da imagem Jogadores Anônimos oferece apoio contra o vício em Londrina
| Foto: Celso Felizardo

O primeiro contato costuma ser simples e direto. Quem chega recebe um folheto com 20 perguntas que ajudam a identificar o grau de envolvimento com o jogo. Questões como “Você já perdeu horas de trabalho ou da escola por causa do jogo?” ou “Alguma vez pensou em cometer um ato ilegal para financiar apostas?” funcionam como um espelho desafiador. Sete respostas positivas indicam um quadro de jogo compulsivo. A partir daí, começa o caminho dos 12 passos, que unem disciplina, partilha e espiritualidade.

“Espiritualidade é a chave”, resume um dos coordenadores. “Terapia e acompanhamento médico são importantes, mas aqui acreditamos que trabalhar o espírito sustenta a recuperação.” Logo na entrada, cada novo integrante recebe um chaveiro vermelho. É o único entregue sem contrapartida. Os seguintes precisam ser conquistados com tempo e frequência, mudando de cor até chegar ao dourado, símbolo de um ano longe do jogo.

As histórias que circulam nas rodas são duras. Um empresário de 33 anos perdeu o carro, cerca de R$ 70 mil em dinheiro e vendeu todo o estoque da loja de eletrônicos para apostar. Tentou tirar a própria vida. Hoje está em tratamento e não administra mais o próprio dinheiro, tarefa que ficou com familiares. “A luta é diária”, resume.

A distância de 50 quilômetros não é impedimento para um agricultor de 28 anos, morador de uma cidade da Região Metropolitana de Londrina, que toda semana pega a estrada para participar das reuniões. Há três meses no grupo, chega sorrindo, cumprimenta a todos e diz que ali encontrou um lugar seguro para falar, sem julgamentos. “Estou em tratamento, sei que ainda não estou ‘pronto’. A tentação é muito grande. Mas estar aqui é uma alegria. Para cuidar de mim e para ajudar os outros também”.

Um servidor público, na faixa dos 40 anos, define o grupo como família. E o clima é realmente este entre os participantes, com exceção de um deles, que participava de sua primeira sessão ainda com olhar de desconfiança. “Muita gente tem receio, porque sente culpa, sente vergonha de ser julgado. Mas aqui isso logo é superado, porque somos todos iguais, estamos todos na mesma luta”, incentiva o servidor público.

“Cavei uma cova”

A facilidade de acesso às bets foi a ruína para um adolescente participante do grupo. O vício que aumentou exponencialmente em uma velocidade assustadora resultou em dívidas na casa dos “seis dígitos”. Ele, que já passou por clínicas psiquiátricas e hoje está em internação domiciliar, conta que “cavou uma cova” nas plataformas de jogos on-line. “Tudo que eu tinha eu gastava. Não havia limites. Aquilo só ia crescendo”, relata.

Na outra sala, a mãe dele dá um depoimento comovente. “É uma luta que não é fácil. Mas nós encontramos aqui uma luz no fim do túnel. Isso nos encheu de esperança”, comemora, entre lágrimas. Agora, ela e o marido fazem o policiamento dos hábitos do filho no celular, mas sem “sufocar”. “É preciso esse equilíbrio e respeito para que o tratamento tenha sucesso”.

Há também mulheres no grupo. Uma enfermeira, na casa dos 40 anos, participava da segunda reunião quando contou como o convívio e a partilha das dores deram força para enfrentar o vício. Além dos encontros, passou a investir em atividades manuais para reduzir o tempo no celular. O crochê virou aliado. “O que eu encontrei aqui foi muito melhor do que eu imaginava. Não vou desistir por nada”, garante, ao fazer planos da coleção de chaveiros que pretende montar.

Segundo um dos coordenadores do grupo, o perfil dos jogadores no país mudou ao longo dos anos. Antes, eram homens mais velhos. Com os bingos, o público feminino cresceu. Agora, com as apostas online, chegaram os jovens, e também os aposentados. “Ficou muito fácil jogar. É um cassino nas mãos de cada um”, resume o coordenador.

Todos os nomes foram preservados nesta reportagem porque o grupo é inteiramente formado por jogadores ou familiares.

Para quem vive o problema ou convive com ele dentro de casa, o grupo reforça que procurar ajuda é um passo possível - e necessário.

Serviço:

As reuniões do Jogadores Anônimos acontecem todas às terças-feiras, das 19h às 21h, no anexo da Paróquia Sagrados Corações, Rua Mato Grosso, 1167 - Centro. Entrada pelo estacionamento. O telefone de contato é (21) 99472-1933, da sede no Rio de Janeiro.

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