A crise é global. Derruba bolsas, fortunas e reputações nos países ricos, pobres, emergentes e submergentes. Retarda a recuperação do Japão segunda potência da mesma forma meridiana com que sabota a convalescença do Brasil ainda nas dores da estabilização. Acaba com a ditadura de três décadas na Indonésia corrompida com a mesma solenidade com que ameaça o pé-de-meia do povo americano, com US$ 9 trilhões estacionados em ações e fundos de ações. Estremece a retomada do emprego na União Européia com a mesma sem-cerimônia com que encurrala o planeta China contra o paredão de uma iminente desvalorização cambial sem alternativa.
Se a crise é global, a saída só pode ser global. Eis a descoberta da roda assumida, publicamente, pelo presidente Bill Clinton, estadista nas horas vagas. Ele acaba de discursar sobre um programa de metas (ainda sem a garantia de meios): injeção de empréstimos favorecidos dos países superavitários nas veias murchas dos países deficitários. Afinal, o que não falta é excedente econômico absolutamente ocioso nos cofres dos Estados Unidos, da União Européia e do Japão. Com sobras para as carteiras multilaterais do FMI e do BIS.
Não falta recurso ocioso. O que falta é vontade política. De choque em choque, entretanto, o clube do G-7 liga o desconfiômetro: na crise global nenhum país é uma ilha. Nem os Estados Unidos, já no oitavo ano consecutivo de prosperidade com estabilidade. Por ser uma economia global por vocação e necessidade, a saúde do Tio Sam depende, mais que nunca, da sanidade física e política dos países emergentes. Começando pelo quintal dos Estados Unidos, a América Latina, futura parceira da Alca made in USA.
O novo Plano Marshall iria da Rússia ao Brasil, passando pelos demais emergentes encalacrados. Seria uma vaquinha global feita de empréstimos ‘‘stand by’’ e não de donativos. Um programa liderado pelo Tesouro americano e escoltado pela União Européia, pelo Japão ricaço e pelo FMI/BIS. Um Plano Clinton seria o nome da fera? Negativo. Isso esvaziaria o programa a golpes de ciumeira de um Blair, de um Jospin, de um Kohl. Mesmo porque o presidente Bill Clinton pessoa jurídica acaba de ser moralmente conspurcado pelo cidadão Bill Clinton, hoje no papel do tarado da anedota - e do homem normal pego em flagrante.
A solução global trombaria de frente com a especulação financeira sem juízo. Não haveria necessidade de recursos imensos. Bastaria a vontade política da solução solidária para reverter as expectativas das nações, das empresas, dos indivíduos. Ou como destacou Alan Greenspan, dia 4, na Universidade da Califórnia: a crise global é uma crise de confiança dos mercados nos próprios mercados. A intervenção samaritana dos governos nos calcanhares da especulação financeira é a única forma de reverter as expectativas sinistras que hoje empurram a economia real para o brejo. Se é que haverá brejo suficiente para tantas vacas apavoradas.


Secos & Molhados
Um reforço

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