Uma trégua na paranóia intermitente da crise global pode atenuar o ataque especulativo contra o real. Essa trégua viria a cavalo de uma ação orquestrada do G-7, pelos condutos do FMI, em socorro da Rússia, do Brasil e de outros (sub)emergentes estremecidos. O assunto está na pauta desta semana do G-7, do FMI e do Congresso americano, com sobras para o Kremlin e o Palácio do Planalto. Exposição de motivos: o problema é global e a solução tem de ser global.
O problema é que uma reversão da crise não vai consertar o estrago cometido por ela na semana passada. O novo choque defensivo dos juros acaba de deixar a economia brasileira com os pés no chão e as mãos também. Escaldadas, as empresas do mercado real de projetos, produtos, serviços, empregos, salários e impostos engavetam decisões e protelam negócios. Exatamente quando o Brasil ensaiava a baldeação do programa de estabilização para a retomada do crescimento sustentado.
Essa decolagem foi abortada a meio minuto do ‘‘point of no return’’. Juros na estratosfera, com direito ao sumiço sumário do crédito para produção, giro e consumo, colocam o mercado interno no limiar de uma recessão maior que a do triênio 1990/92. Única diferença: antes, recessão com hiperinflação; agora, menos mal, recessão com inflação perto de zero. O detalhe: recessão só produz inflação em economias dopadas pela indexação. Dessa, até prova em contrário, estamos livres. A ninguenzada sem acesso à indexação penhoradamente agradece. Ela vai continuar votando no Plano Real, que já foi Plano FHC.
Na recarga violenta dos juros, em apenas dez meses de crise global, empresários, sindicalistas e consumidores temem o repeteco dos choques econômicos encadeados, no sinistro figurino dos congelamentos de preços e salários do governo Sarney e do governo Collor. A economia real sai de um choque já no aguardo do próximo. Até porque nenhum governo do mundo, nem mesmo o salão oval da Casa Branca de susto (ou de vexame), consegue antecipar-se a uma eventual bancarrota da Índia, a uma provável fechadura da Rússia, a uma iminente ‘‘bankruptcy’’ do Japão, a uma maxidesvalorização cambial da China ou a um inadiável ‘‘ajuste técnico’’ (para baixo) da Bolsa de Nova York, ainda na bolha da ‘‘irrational exuberance’’.
O mercado interno brasileiro, fisicamente exaurido pelo crédito bancário mais curto e mais caro do planeta sem juízo, sai para o acostamento do Natal mais desaquecido da década. Sem mistério: empresas e cidadãos deslocam-se da produção e do consumo para a poupança mais rentável do mundo. A ordem é fazer dos juros de Drácula não um feroz inimigo (na ponta do tomador), mas o doce aliado (na ponta do poupador). Ontem, um fabricante de eletrodomésticos refez os cálculos: a) se continuar produzindo, perderá 13% ao ano; b) se aplicar o capital no banco da esquina, ganhará 26%. A vantagem da segunda opção é de 39 pontos porcentuais sobre a primeira. Sem trabalho, sem risco, sem bolsa, sem crise.


SECOS & MOLHADOS
Incógnita

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