Joelmir Beting
As 3.057 companhias registradas na Bolsa de Valores de Nova York estavam valendo, na entrada de agosto, perto de US$ 9,2 trilhões. O valor patrimonial do bloco, na mesma data, não passava de US$ 4,7 trilhões, pouco mais da metade do respectivo valor de mercado. A tal de irrational exuberance, na sentença togada de Alan Greenspan, o severo guardião da moeda americana.
Quem lidera o campeonato da valorização na Nyse é a estrela da high-tech digital, a Microsoft. Nos cálculos do banco de investimentos Bear Stearns, a criatura de Bill Gates está oscilando, em bolsa, ao redor de US$ 355 bilhões, contra US$ 342 bilhões da General Electric. O detalhe: no ano-fiscal encerrado em junho, a gigante do software faturou US$ 14,5 bilhões. Uma ninharia, se cotejada com os US$ 179 bilhões da General Motors ou com os US$ 154 bilhões da Ford, as duas maiores corporações industriais do mundo. Pois o valor de mercado da GMC e da Ford, juntas, não tem passado de US$ 123 bilhões.
Neste ano, nas marolas da crise asiática e nas carrancas de Alan Greenspan, as ações negociadas pela Nyse acumulavam, até sexta-feira, uma valorização de 5,8%. O pico do ano deu-se em 17 de julho, com 15,7%. Desde janeiro, desvalorização de 21,1% nas bolsas de São Paulo e Rio de Janeiro. Há quem aposte na valorização de 10%, este ano, na exuberante Nyse. Para um patrimônio de US$ 9,2 bilhões, o ganho anual de um décimo equivaleria a 1,1% do PIB do Brasil.
Essa percepção de enriquecimento coletivo, sem trabalho, com um e outro susto de contrapeso, ajuda a explicar a prosperidade da economia americana nesta travessia dos anos 90. Os cidadãos com pé-de-meia em ações transformam boa parte dos ganhos em bolsa em consumo corrente de bens e serviços. Uma relação incestuosa: a bolsa sobe porque a economia vai bem e a economia vai bem porque a bolsa sobe.
O mercado de ações, nos Estados Unidos, mobiliza mais de 27 mil empresas de capital aberto - com ações em poder do público investidor. E que público! São mais de 78 milhões de acionistas de uma ou mais empresas. O ativo total de todas as ações (de todas as empresas) acaba de ser reavaliado pelo Federal Reserve em US$ 15,4 trilhões (incluídos os US$ 9,2 trilhões da Nyse). Esse excedente econômico, genuinamente capitalista, é compartilhado por bancos, fundos mútuos, fundos de pensão e carteiras individuais de empresas, de famílias, de pessoas.
Uma forte queda das ações americanas, por conta de uma nova fuzarca da bolsa global, teria massa crítica suficiente para empurrar a economia americana da euforia para a depressão. Analistas de Wall Street não acreditam em queda da bolsa por ajuste técnico. Só por pânico importado. Até prova em contrário, a Nyse navega em mar calmo e gelado, em noite de céu estrelado, feito um Titanic de US$ 9,2 trilhões - o barco que nem Deus afunda!
SECOS & MOLHADOS
Um tropeço





