Pelas barbas do profeta, o total de fusões de empresas, em todo o mundo, deve furar a barreira de US$ 1,5 trilhão, este ano. No ano passado, o casório das ilustres pessoas jurídicas, ungidas pelas graças de São Mercado, acumulou exatamente US$ 1 trilhão, redondão. Só nos Estados Unidos, já foram anunciados, este ano, até maio, fusões de US$ 676 bilhões, segundo a Securities Data.
As fusões, no caso, dão carona a operações de ‘‘take over’’: incorporação não confessada da empresa menor pela parceira maior. Ainda que preservando marcas. Caso mais estridente da operação de US$ 42 bilhões envolvendo a germânica Daimler-Benz e a americana Chrysler. ‘‘Não vamos criar um carro Daisler nem Chrymler’’, avisa o presidente da Daimler-Benz, Juergen Schrempp.
As fusões mais rumorosas para a platéia embasbacada são as que se desenrolam entre gigantes do mercado financeiro e do mercado automotivo. São serviços e produtos de grande charme político e de enorme prestígio social. Nos bancos e nas montadoras, tamanho ainda é documento. Estruturas integradas de alcance global (e de classe mundial) patrocinam ‘‘ganhos de escala’’. Ou se preferem: em tais mercados, a alma do negócio é ganhar cada vez menos sobre cada vez mais.
Áreas igualmente cortejadas pelas fusões e incorporações são as da indústria de energia, de telecomunicações e de transportes. Elas emergem na espuma da privatização de monopólios estatais e da desregulamentação de mercados cartoriais. Enquanto se anuncia nova megafusão nas telecomunicações nos Estados Unidos, da ordem de US$ 55 bilhões, cristalizam-se operações de grande porte nas áreas de petroquímica e química fina nos dois lados do Atlântico Norte.
Há um subproduto não menos guloso no terreno movediço das grandes corporações: o ‘‘noivado’’ das chamadas ‘‘alianças estratégicas’’ entre ferozes competidores. A exemplo das fusões e das incorporações, as alianças estratégicas envolvem não apenas parceiros no contrapé, mas empresas que estão na ponta dos cascos na respectiva carreira solo. São apostas no futuro do mercado global.
As alianças fazem o atalho predileto das empresas de ‘‘high-tech’’, em estado de ebulição permanente. A ordem é concentrar ações de pesquisa e criação, combinar vantagens comparativas, rebaixar custos fixos, integrar sistemas operacionais _ e brigar pelo consumidor final na base do Titanic na hora do naufrágio: ‘‘Every man for himself.’’ E São Mercado para todos.
Secos e molhados
Liderança
Os alemães lideram o movimento de fusões na Europa, seguidos de perto pelos ingleses. Os franceses aguardam o desfecho do programa de privatizações.
Caso Fiat
Gianni Agnelli, ainda ativo, lembra que a ‘‘conglomeração’’ de padrão japonês começou pela Itália. Ou melhor: pela Fiat. Ela apelou para a concentração (com diversificação) ainda nos anos 60. Hoje, a Fiat abriga oito marcas de automóveis ‘‘made in Italia’’.
Abertura
A escalada dos casamentos empresariais serve-se da ampliação e arejamento do mercado de capitais e da descomplicação das leis antitruste e de defesa da concorrência. Concentração também rima com desnacionalização.
Um xerife
No Brasil, o xerife das fusões e incorporações é o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Cujo papel não tem consenso nem mesmo entre os próprios conselheiros.

mockup