Joelmir Beting
Joelmir Beting
Ter o direito de fazer greve não é a mesma coisa que estar certo em fazêlo.
Michel Platini, coordenador da Coupe du Monde - France 98
Furando a bola
A greve dos pilotos da Air France pode ter sido a ponta do iceberg de uma autêntica rebelião trabalhista por toda a França durante a Copa do Mundo. Foi o que disse na televisão, via satélite, em tom raivoso, o sindicalista Louis Viannet, presidente da central francesa CGT, controlada pelos comunistas (eles ainda existem). Outras greves táticas e tópicas estão na rampa de lançamento dos sindicatos a partir de segunda-feira. Entre outras - oh! xente! - a da televisão. A da BBC britânica está engatilhada para quarta-feira, abertura da Copa, no jogo da Escócia contra o campeão Brasil.
Enquanto o presidente francês Jacques Chirac apela para o patriotismo das lideranças sindicais (o primeiro-ministro socialista Daniel Jospin prefere o silêncio, feito canarinho na muda), as estatais dos transportes, das telecomunicações e da energia aterrorizam os membros do Comitê Organizador da Coupe 98, com sobras para o comando da Fifa e seus 12 bilionários patrocinadores globais. Elas ameaçam paralisar trens e metrôs, fechar portos e aeroportos, cortar a energia, tirar o rádio e a televisão do ar.
Bravata? Não é de hoje que a CGT tem na gaveta um plano de guerra para reprisar em 1998, com os trabalhadores, as barricadas de 1968, com os estudantes. A massa crítica para o levante sindical já foi alcançada: um desemprego recorde de 12,6% da força total de trabalho. Desemprego da variedade rosca sem-fim. Os pilotos da Air France já deram o primeiro tiro. Não há demissões na empresa e os salários estão, em média, 35% acima do dos colegas da inglesa British Airways, 42% acima dos da alemã Lufthansa ou 38% acima dos da americana United Airlines. A greve foi provocada pelos primeiros desembarques da Copa do Mundo e não pelo plano da Air France de converter 15% dos salários em ações da companhia.
Na televisão, ontem, Louis Viannet, da CGT, desfiou longo discurso contra o desemprego, contra a globalização, contra o neoliberalismo, contra o El Ni¤o e contra o Ronaldinho -aquele negócio de futebol, ópio do povo. Que João Saldanha, entre nós, preferia definir como o pio do povo.
Aqui no Brasil, a Copa pela televisão não corre nenhum risco. Já basta o bola-fora de Zagallo. A Embratel diz que está tudo na ponta dos cascos e das linhas. E a Eletrobrás, dona da força e da luz, avisa que montou um esquema especial de segurança energética para os horários do Brasil em jogo. Montado desde fevereiro, o esquema proíbe a interrupção de suprimento para serviços de manutenção preventiva enquanto a bola estiver rolando na França. Técnicos da Eletrobrás admitem redução do consumo de até 11.500 megawatts durante o jogo de abertura, quarta-feira, a partir do meio-dia. Haverá redução da atividade econômica. Em dias normais, o consumo nacional do horário é de 41.500 megawatts.Secos e molhados
Telebola
- As vendas de televisores cresceram 23% em abril e perto de 28% em maio. É a melhor Copa de todos os tempos para o varejo do ramo, estima o pessoal da Eletros. Na Copa de 90, as vendas do ano somaram 2,8 milhões de unidades. Na Copa de 94, com o Real nas dores do parto, a coisa cravou 5,4 milhões. Este ano, provavelmente, acima de 7 milhões.
Saturação
- Fabricantes e varejistas lembram que o Real manteve o mercado superaquecido no triênio 1994/96. Há um limite de saturação de mercado. A Copa estimulou a venda de aparelhos maiores, com os telões entrando na moda da classe média. Receptores acima de R$ 800 já respondem por 18% das vendas totais. Na Copa de 94, menos de 3%.
Sem Viagra
- Para a Phillips, o mercado brasileiro já poderia absorver 10 milhões de televisores. Em 1996, o recorde foi de 8,6 milhões. Para alcançar o potencial de 10 milhões estão faltando crédito melhor, emprego maior e uma baita dose de Viagra na seleção de Zagallo. Assunto para amanhã.





