Joelmir Beting


‘‘A água de boa qualidade é exatamente como a saúde ou a liberdade: ela só tem valor quando acaba.’’
João Guimarães Rosa (1908-1967), escritor.

A fonte secou?
Nos últimos 60 anos, a população mundial dobrou de tamanho. No mesmo período, o consumo de água ficou sete vezes e meia maior. Água para fazer energia, água para irrigar lavouras, água para enfeitar campos e cidades, água para higiene pessoal e doméstica, água para transportar cargas e passageiros, água para beber. Com o detalhe digno de reflexão e arrepio nessa Semana do Meio Ambiente: 97% da água existente no planeta Terra é salgada. Outros 2% formam geleiras inacessíveis. Resta apenas 1% do manancial planetário sob a forma de água doce nos rios, nos lagos, nos lençóis freáticos. Isso já não é mais estatística. Começa a exalar o enxofre da catástrofe.
Como diria José Maria de Jesus, pés enfiados na lama do Rio Arrependido, que parou de rolar: a água não é eterna, não é infinita. Ao que acrescentaria Juliano Bastide, fechando o suplemento sobre os saques da indústria da seca, versão 98: a cultura da abundância ilusória patrocinou a acomodação coletiva em todo o território nacional. O brasileiro finalmente descobre que a água de boa qualidade está por um fio em qualquer aglomeração urbana, endereço de quatro patrícios em cada cinco. E mais: percebe, remoído de remorso coletivo, que continuamos desperdiçando um recurso sabiamente escasso, cada vez mais precioso.
Nossa cultura da abundância (irmã siamesa da cultura do desperdício) começa ainda na escola, na aula de geografia: o Brasil cor de anil é dono de 13% de toda água doce do planeta Água. Faltou decorar a lição de casa, em tom de advertência: 70% dos nossos recursos hídricos estão localizados na Amazônia Legal, para desfrute de apenas 7% da população brasileira. No Sudeste, que hospeda 42% da população total, a disponibilidade de água não passa de 6% do reservatório nacional. Pior: é o manancial mais exigido e o mais poluído. O que caracteriza um recurso atrofiado em quantidade e em qualidade. O retratamento da água na região metropolitana já virou máquina de enxugar gelo. Adutoras maiores e mais caras que as linhas de metrô são abastecidas por águas captadas a mais de 130 quilômetros de distância da Praça da Sé. Na bacia do Rio Piracicaba, por exemplo.
A milenar seca do sertão semi-árido, que é do ramo, acaba de virar palanque da oposição ligeirinha. Que investe pesado sobre o governo federal, poupando a inércia e a omissão de governos estaduais e de prefeituras municipais da região. Essa nova neura tem pelo menos o mérito de despertar a opinião pública para a discussão da água - mais que a discussão da chuva. Fala-se hoje nos lares e nos bares sobre o uso múltiplo da água com o mesmo entusiasmo cívico com que se deplora o desperdício de bola da seleção zagalinha.
Ontem, um motorista de táxi me pegou pelo braço: ‘‘Ouvi no rádio que a irrigação responde por quase metade da produção mundial de alimentos. E no Brasil?’’ Chutei de volta: ‘‘Acho que uns 15% ou nem isso.’’ Em casa, abri o computador e ali estava: no Brasil a área irrigada não passa de 5%. Mas garante 16% da produção total de alimentos em volume. Ou 35% da mesma produção em valor. Secos e molhados
Lei das águas
- Já temos um sistema de gerenciamento de recursos hídricos devidamente consagrado em diploma legal: é a Lei 9.433, de janeiro de 1997. Essa Lei das Águas, como diz o ministro Gustavo Krause, engaja toda a sociedade e promove um autêntico Movimento da Cidadania pelas Águas. Um MCA, que já começou.
Água de beber
- A prioridade primeira da Lei das Águas é a da proteção, captação e adução da água de beber. O secretário de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, o agrônomo mineiro Paulo Afonso Romano, aponta o segundo alvo: o aproveitamento de águas subterrâneas - recurso que fez do semi-árido dos Estados Unidos o celeiro do mundo.
E o Nordeste?
- O semi-árido brasileiro, pobre de chuva e rico de água (e de terras férteis), ganhou no sistema de gerenciamento da Lei 9.433 o programa Proágua. Em Pernambuco, a Adutora do Oeste em construção terá 711 quilômetros. No Rio Grande do Norte, mais 1.120 quilômetros de adução. Numa região em que a água, hoje, anda de trem. Tal como no século passado do faroeste da Califórnia.

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