Joelmir Beting
Joelmir Beting
Discurso sem recurso
O governo brasileiro não tem política ambiental adequada. E o movimento ambientalista não tem estratégia definida. Por causa disso, a sociedade brasileira ainda encara a cruzada ecológica com dois bocejos de tédio. Há até mesmo quem diga que os ambientalistas são inimigos do progresso e do emprego, sabotando projetos, encarecendo obras, retardando decisões. Avaliação de ambientalistas reunidos no Rio de Janeiro, segundo relato do jornalista Washington Novaes.
Nesta Semana Internacional do Meio Ambiente, mais uma, tenta-se resgatar o espírito de luta da Agenda 21, partejada pela Rio-92 e ratificada pela Rio+5. Washington Novaes está cético: Se a causa ambiental não ganhar a batalha da comunicação, o tal de desenvolvimento sustentável continuará confinado em guetos empresariais e acadêmicos. Avançamos na legislação protetora e repressora, mas tem sido difícil aplicá-la. A maioria da população ainda não faz ligação direta entre questões ambientais e qualidade de vida. O quadro sugere que temos de repensar nossos formatos de viver. A crise ambiental é de caráter civilizatório.
Pelo sim, pelo não, decisões da Justiça, em Minas Gerais, Amazonas, Maranhão, Bahia, Paraná, Santa Catarina e Mato Grosso do Sul estão enquadrando empresas poluidoras e agressoras. Elas se obrigam a compensar estragos ambientais com investimentos em parques, reservas e estações ecológicas. A Veja, desta semana, dá a relação das empresas e dos projetos capitulados pelo diploma da compensação ambiental.
E não era sem tempo. Levantamento do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) revela que o Brasil ocupa a lanterna da Copa do Mundo da proteção dos ecossistemas: apenas 2% das áreas mapeadas estão sob proteção. Para preservar a biodiversidade de grandes ecossistemas, a margem da proteção ostensiva deve estar acima de 10% da área total. A Amazônia, por esse critério, está a meio caminho, com proteção de 5%. A mata atlântica, que fica ao alcance dos nossos olhos e de nossas casas, tem proteção abaixo de 2%. Quer dizer: 2% dos 7% que dela restaram.
O mesmo levantamento aponta os países do desmantelado planeta socialista como os campeões mundiais da degradação ambiental. A lixeira maior começou pela antiga Alemanha Oriental, onde a cruzada ecológica foi apedrejada na categoria de manifestação do neocolonialismo capitalista. A coisa chegou a tal ponto que o governo comunista vendeu o subsolo da Alemanha Oriental para estocar o lixo atômico e o lixo químico da Alemanha Ocidental. Na base de US$ 1,5 milhão por um barril de rejeitos nucleares de 8 toneladas, chamado Textor. Em todo o Leste Europeu, a coleta do esgoto sanitário alcança 90%. Mas o tratamento do material coletado não tem passado, até aqui, de 10%. São rios e lagos com odor de Terceiro Mundo. Escassez do recurso? Estupidez da opção.Secos e molhados
Outra face
- A cruzada ambiental completa três décadas em todo o mundo. Nesse período, cristalizou-se a idéia de que preservar o que ainda não foi agredido e resgatar pelo menos parte do que já foi degradado é uma atitude coletiva politicamente correta, economicamente vantajosa e socialmente reparadora.
Já melhorou
- Apesar das manifestações em contrário, os níveis de poluição da água, da terra e do ar estão em declínio nos países desenvolvidos, com reserva potencial. Quando estive em Tóquio pela primeira vez, em março de 1972, quase morri sufocado. Literalmente.
Maior vilão
- O automóvel, usineiro da poluição atmosférica da cidade grande, já reduziu a sujeira de escape em 78%. E só não chegou a 90% porque o combustível fóssil continua um lixo.
Um sermão
- Dois pontos: 1) o sistema econômico continua aberto e não dá liga com o ecossistema que permanece fechado ou finito; 2) quando agredida, a natureza não se defende _ ela apenas se vinga.





