Joelmir Beting
Joelmir Beting
Na condução dos negócios internacionais, único medo de que devemos ter medo é o medo de ter medo.
George Gilder, consultor americano.
Refresco no álcool
O governo da Califórnia acaba de ordenar a substituição do composto químico MTBE pelo álcool anidro na mistura carburante exigida pelo Clean Air Act, a Lei do Ar Limpo. Essa decisão resulta de uma descoberta recente: o MTBE expelido pela frota estadual de 17 milhões de automóveis está poluindo rios e lagos da Califórnia. Alô! Alô! Rio Grande do Sul! O governo gaúcho é o único que substitui o álcool pelo MTBE no Brasil.
Falta álcool de milho nos Estados Unidos e sobra álcool de cana no Brasil. Nosso estoque ocioso já passa de 2 bilhões de litros, por obra e graça do marca-passo do carro a álcool. Que nas montadoras da pátria do Proálcoolcomeça a ser substituído pelo carro a gás natural. Coitado do etanol! Eta nóis!
Numa operação tripulada em Washington pelo embaixador brasileiro Paulo Tarso Flecha de Lima, o Estado da Califórnia passa a importar todo o excedente do álcool brasileiro: 2 bilhões de litros ainda este ano e mais 2 bilhões no ano que vem. O embaixador Flecha de Lima negocia a retirada da taxa de proteção do álcool americano. Uma facada de 54% no desembarque do álcool brasileiro, o mais barato ou mais competitivo do mundo.
A queda da barreira tarifária tornou-se politicamente palatável em Washington. A mistura carburante desfruta de grande prestígio político nos Estados Unidos - por conveniência ecológica e, a qualquer momento, também por emergência energética. Tanto assim que o contrato com a Califórnia foi assinado na Casa Branca. Pelo Brasil, o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima e o ministro José Botafogo Gonçalves. Pelos Estados Unidos, o vice-presidente Al Gore e a representante comercial da Casa Branca, Charlene Barshefsky.
O embaixador Flecha de Lima deslocou-se no dia 7 até Madison, capital do Wisconsin, para uma reunião com os 21 governadores que integram a Coalizão Pró-etanol. Esse grupo já esteve no Brasil e defende a importação suplementar do álcool brasileiro para a mistura carburante do Clean Air Act. Da comitiva brasileira em Madison fizeram parte Luis Carlos Correa Carvalho, coordenador da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única), e Laura Tetti, consultora ambiental.
O embaixador Flecha de Lima visitou os centros de pesquisa de biotecnologia de Wisconsin. Ali são apuradas novas tecnologias de produção de álcool a partir de resíduos orgânicos de lavouras e de rebanhos. No mesmo laboratório, obteve-se recentemente uma variedade de soja de alto rendimento para solos com alto índice de acidez. Uma semente ideal para o cerradão do Brasil Central. Refresco
- A exportação do excedente do álcool pode recompor preços e margens de toda a cadeia da agroindústria canavieira. Nesta nova safra do Centro-Sul, tira-se da cana 45% de açúcar e 55% de álcool. O bagaço vai para co-geração de eletricidade e o vinhoto é reciclado na adubação dos novos canaviais.
Sem margem
- O álcool do milho americano custa quase o dobro do álcool da cana brasileira. No momento, a exportação do milho em grão dá mais retorno para os produtores do que a extração do álcool. A mistura de 5% para toda a frota americana exige 35 bilhões de litros por ano. O dobro do nosso Proálcool.
Na balança
- A exportação de álcool para a Califórnia vai rebaixar o déficit da balança comercial brasileira em pelo menos US$ 800 milhões. Sem contar as divisas poupadas pelo álcool, na importação (e na reexportação) da gasolina. Na mistura, a Petrobrás paga pelo álcool anidro R$ 0,44 por litro.





