Joelmir Beting

‘‘A lógica do consumo, amparada pela competição, pode ser o estopim econômico de grandes transformações sociais no Brasil.’’
Adriano Silva, ensaísta.

Comprar é pecar?
O varejo do Dia das Mães perde para as vendas do Natal, para os apelos das liquidações e para o Dia dos Namorados. Ainda assim, a data promocional mobiliza todo o comércio lojista - incluído o de alimentos. Executivos do setor dizem que ‘‘o pior já passou’’. Vai dar para igualar, nesta edição 98, o mesmo desempenho do Dia das Mães do ano passado, antes da sinistrose asiática.
O amor filial continua encarando juros de 9% ao mês ou de 208% ao ano na compra financiada de um microondas ou de uma lavadora automática. Com direito a uma taxa equivalente de calote ou de inadimplência. O que tem levado o balcão do crediário a adotar planos rígidos e seletivos de financiamento.
Grandes redes, devidamente estocadas, apostavam na desova de uma certa demanda reprimida. Quem deixou de comprar no Natal, por conta de uma ‘‘brutal recessão’’ que não houve, estaria sacando a poupança nesta semana do Dia das Mães. Ficou na promessa. As vendas da linha branca, desde janeiro, estão 12% abaixo do mesmo período do ano passado. No som & imagem, queda de 34%. Nos televisores, ainda há um mercado residual nesta reta de chegada da Copa do Mundo.
No mais, os puristas da economia pasmada servem-se do ‘‘mercantilismo do Dia das Mães’’ para desancar a tal ‘‘sociedade de consumo’’. Um deles, cujo nome poupamos aqui, escreve em revista semanal que o brasileiro caiu na armadilha da ‘‘consumer-driven culture’’ americana: um desperdício de poupança individual ou familiar no consumo compulsivo de baboseiras nacionais e importadas. No mesmo ensaio, o autor destila manifesto contra a ‘‘maré do desemprego que engolfa a economia neoliberal’’, etc. e tal.
Fico com os americanos: ‘‘Eu consumo; logo, existo.’’ Agora, em nova versão: ‘‘Eu consumo; logo, emprego.’’ Yes. O consumismo da sociedade hedonista explica hoje a menor taxa de desemprego do pós-guerra, abaixo de 5%. Na Europa mão-de-vaca, o desemprego oscila acima de 11%.
O presidente americano Thomas Jefferson (1743-1826) escreveu em uma mensagem para o Dia de Ação de Graças: ‘‘Cuide de seu próprio nariz. Não faça nada errado. Faça só o que deve e pode ser feito. Coma seu bife, beba seu vinho, tire sua soneca e confie em Deus.’’
Eis o lema que pelo menos dois terços dos brasileiros, com renda familiar de 2 a 20 salários mínimos, tentam seguir ao pé da letra e da verba. Na classe C/D, a prioridade de consumo, reescalonada pelo Real, segue esta ordem: 1) alimentos; 2) remédios; 3) confecções; 4) cosméticos; 5) materiais de construção; 6) higiene pessoal; 7) material escolar; 8) brinquedos; 9) eletrodomésticos; 10) lazer. Fonte: HBO/Provar/Abras. Secos & molhados
Que verbo!
- Para o Aurélio, consumir é traduzido por: 1) gastar ou corroer até a destruição; 2) extinguir, aniquilar, abater; 3) enfraquecer, afligir, mortificar... Cruz-credo!
Que sina!
- O comentário é de Adriano Silva: ‘‘Consumir, para o Aurélio, tem sentido negativo e pejorativo. Não há ligação com a idéia corrente de comprar, adquirir, satisfazer. Não é por acaso que o consumidor brasileiro sempre foi maltratado.’’
Que regra!
- Nos Estados Unidos, o consumidor acaba de assumir de vez o trono do processo econômico. Para qualquer empresa, não basta mais saber produzir, vender ou comprar. A ordem, doravante, é saber agradar.
Que bobo!
- No Brasil, consumidor ainda é sinônimo de otário. Até no futebol, lembra Adriano Silva, com meio Morumbi corintiano gritando em coro: ‘‘Um, dois, três! O São Paulo é freguês!’’

mockup