Joelmir Beting
Joelmir Beting
A correção do bug do milênio não é mais problema de dinheiro. Agora, pior ainda, é questão de tempo. Ou de falta de tempo.
Hélio Gurovitz, jornalista (em Exame de 29/1/97)
Faltam 603 dias
O tempo passa, o tempo voa. Faltam menos de 20 meses para o que a revista Computerworld, em matéria de capa, chama de doomsday (dia do juízo final). Uma empresa de porte médio precisa de 27 meses, no mínimo, segundo o Relatório Carpes Jones, para desligar a bomba-relógio do bug do milênio incrustada em seus sistemas e programas de computação.
No caso brasileiro, o alerta vermelho pisca e grita adoidado desde o ano passado. Pesquisa da consultoria DRC revela que, de 3 mil empresas consultadas sobre ações de conversão dos computadores, apenas 38% esperam concluir o trabalho ainda este ano. Um lote de 43% ainda não sabe se conseguirá realizar a façanha antes do doomsday. E 19% ainda não mexeram uma palha. Ou um byte.
No setor público a coisa também anda de lado. O programa de acompanhamento das adaptações, conduzido pelo Ministério da Administração e Reforma do Estado, o MAREonline A2000, segue as pegadas do bug em 646 órgãos federais de primeiro e segundo escalão. O A2000 também identifica as ações junto a fornecedores e prestadores de serviços. O último levantamento, datado de 3/4/98, mostra que os 16 órgãos vinculados à Presidência da República ainda não estavam plugados no programa. Nem mesmo os 19 órgãos do Ministério das Comunicações. Ou os 27 órgãos do Ministério do Exército.
Maior central de computação do setor público, o Serpro vem encarando o repto do bug desde outubro de 1996. Ele espera concluir, até setembro, a adaptação de todos os seus 741 sistemas e subsistemas. O Banco Central, área crítica, investe R$ 10 milhões na adaptação do Sisbacen. A conta só não apimentou porque o BC, desde 1992, vinha introduzindo sistemas com campo do ano em quatro dígitos. O sistema de câmbio já está totalmente convertido.
Posição dramática é a da Dataprev. Seus computadores zelam pelo bolso de 18,3 milhões de pensionistas e aposentados. O prazo máximo de cessação futura de um benefício na Previdência é de 18 meses. Ou seja: 1º de julho deste ano já bate com 1º de janeiro de 2000. A empresa tem apenas 54 dias para livrar-se do bug.
O Orçamento da União ainda não se dignou a destacar um tostão para a correção do bug, suspira Gilson Lariú, diretor do MAREonline. Única certeza: a partir da zero hora de 1º de janeiro do ano 2000, um sábado, os computadores não convertidos ou não substituídos, com dois dígitos no campo do ano, passarão do ano 99 para o ano 00. O que significa, para a máquina que não raciocina nem improvisa, o ano 1900. Regressão de um século. O resto é o caos.
Secos e molhados
Pesadelo
- A extração cirúrgica de cada bug (erro ou falha) custa, em média, exatamente R$ 1,00, quando feita em casa. Só o Serpro tem 41 milhões de bugs para deletar. Nessa tarefa, ele emprega mais de 1.500 caçadores de bug.
Sem saída
- A tarefa pode ser terceirizada para empresas de software. José Roberto Faria Lima, da Timeware, de São Paulo, diz à coluna que a fase de negação do problema já passou: Os empresários já estão ligados no assunto. O custo é alto. Mas não há outra saída.
Aliança
- A IBM Brasil e a Belgo-Mineira Sistemas (BMS) acabam de inaugurar, em Belo Horizonte, um laboratório para a conversão de sistemas de terceiros. A aliança IBM/BMS tem capacidade para converter 27 mil linhas de código por dia.
Dinheirama
- Para expulsar o bug do governo americano, Bill Clinton arrancou do Congresso uma verba extra de US$ 365 bilhões. E Tony Blair acaba de sacar do Parlamento inglês um reforço de US$ 122 bilhões. Coisa séria.





