Joelmir Beting


‘‘Nos livros, tal como nos jornais, é muito fácil escrever difícil, o difícil, mesmo, é escrever fácil.’
Truman Capote, escritor americano

Leitura sofrida
Um Maracanã por dia. Aquele Maracanã de 100 mil pagantes, o do antijogo do Brasil com a Argentina. Eis o público que comparece diariamente à 15ª Bienal do Livro, em São Paulo. Mais de meio milhão de visitantes nos primeiros cinco dias da mostra de dez dias. Os organizadores esperam vender 3,7 milhões de livros nos 400 estandes que ocupam 19 mil do Expo Center Norte. Uma fatura em bloco de US$ 70 milhões. É a terceira maior feira do mundo para o oitavo maior produtor de livros do mundo.
Executivos da indústria editorial não se ufanam: ‘‘Estamos andando de lado em matéria de penetração de leitura’’, diz Fábio Gasparetto, promotor de livros de Administração. O crescimento das vendas tem sido meramente vegetativo nos três campos da indústria do ramo: ficção, não-ficção e didáticos. Ano passado, pior: queda de 10% nas vendas e de 2,6% nas receitas.
Queda em volume maior que a queda em valor? Sim. Os preços subiram. E aí começa o calvário da indústria: os preços relativos continuam acima da ‘‘intenção de compra’’ de um mercado historicamente arredio e culturalmente inerme. Os avanços são periféricos: maior oferta de títulos com menor média de tiragens - abaixo de 2.500 exemplares por lançamento.
O mercado livreiro de ficção e não-ficção vive dos humores da classe média ‘‘acima da linha média’’, diz Marta Severo Gomes, distribuidora de literatura infantil. O mercado didático faz o gênero de mercado cativo. E a proliferação de bibliotecas públicas e privadas não tem passado de discurso de governantes e de empresários.
Os editores queixam-se de custos fixos e móveis irredutíveis para além dos ganhos de produtividade da indústria do ramo. A incorporação de novas tecnologias de produção e de novos esquemas de comercialização não tem sido suficiente para despertar o mercado consumidor de sua letargia secular. Estamos ‘‘consumindo’’ apenas 2,4 livros por ano. Na Argentina, 7,3. A baixa tiragem por título coloca o setor à margem dos ganhos de escala.
Dono de livraria, Paulo Razuk Neto resume: ‘‘Os preços são altos porque as tiragens são baixas. E as tiragens são baixas porque os preços são altos.’ Assim sendo, por que os livros de grande tiragem não baixam os respectivos preços? Fábio Gasparetto tem a resposta: ‘‘As grandes tiragens cobrem as perdas das pequenas tiragens. Ainda não foi inventada a editora capaz de lançar 100% de best sellers. O negócio ainda é uma loteria.’
Uma coisa é certa: a fatia conjunta da distribuição e da comercialização está duplicando o preço do livro no Brasil. A gente paga R$ 22,00 e a editora, na outra ponta, recebe R$ 10,50.

Secos e molhados

Inimigo 1
- Livro caro enche a bola do inimigo número 1: a falta de hábito de leitura. Desvio que começa na escola e na família. E alcança o trabalho. Pesquisa da Catho revela que apenas 27% dos executivos estão lendo obras de interesse profissional.
Inimigo 2
- A multimídia comete dois estragos na indústria editorial: 1) o rádio e a televisão esvaziam a leitura de jornais, revistas e livros; 2) a reprodução eletrônica, cada vez mais fácil e barata, estímula a pirataria editorial nas escolas, nas empresas e nas famílias.
Inimigo 3
- Faça-se do limão uma limonada. As editoras adotam o livro digital, vulgo CD-ROM. De ficção, não-ficção, didáticos, técnicos, dicionários e enciclopédias. Eles também desfilam nesta 15ª Bienal do Livro. E dando carona a disquetes de livros de poesia, apostilas de História e receitas de bolo.

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