Na reunião ministerial de hoje, com a presença de caciques da base parlamentar em tranco, o presidente Fernando Henrique Cardoso espera juntar os cacos da semana passada e redesenhar a estratégia política pós-Motta e pós-Magalhães. A ordem é não deixar cair a peteca das reformas até julho e das eleições até outubro.
A economia brasileira, ainda sob os trancos da estabilização, não merece continuar em regime de sobressalto por conta de acidentes de percurso na arena política. Não raro, eventos dramatizados, politicamente, pelos profissionais da ‘‘coisa pública’’, devidamente paparicados por uma imprensa avessa à rotina, por vocação e necessidade.
Excesso de cobertura. Eis a única explicação para o clima de ‘‘comoção nacional’’ que se tentou passar de Brasília para o Brasil, via Bahia. Falou-se em ‘‘fratura da sustentação política do governo’’, a dano das reformas, das eleições, dos mercados, dos empregos, sob certas condições, armou-se a mesma sinistrose da ‘‘crise global’’ de outubro. Ou seja: o Brasil vai acabar na próxima esquina da vida...
Com reservas internacionais de quase US$ 80 bilhões, o Brasil já desmoralizou a chantagem emocional importada da Ásia. E tem tudo para reduzir os eventos políticos da semana passada à expressão mais simples: a dor sem consolo das famílias enlutadas. Lembram-se de Tancredo Neves? Dia 21 de abril, terça-feira passada, foi o 13º aniversário da morte do ‘‘pai’’ da Nova República. Sem qualquer registro.
No mais, tudo não passa de autêntica ‘‘masturbação intelectual’’, diria Sérgio Motta. Cujo vazio na coordenação política do governo ensaboado deve ser preenchido por um tripé de reserva: o próprio presidente Fernando Henrique Cardoso, o vice-presidente Marco Maciel (subutilizado na função para a qual veio ao mundo) e o senador José Serra, que está ministro da Saúde. Acabou a moleza. O governo passa a fazer hora extra no terreno minado da articulação política. Tarefa que Sérgio Motta desempenhava com muita saliência e Luís Eduardo com muita eficiência.
Nada de pânico. É bom lembrar aos políticos e aos analistas que 80% das reformas já ganharam o sinal verde do Congresso. E o mais importante: o Congresso não vai (re)eleger o presidente, assim como as assembléias estaduais não vão escolher os governadores. O dono da palavara final é o povo brasileiro, titular de 101 milhões de votos diretos.
Brasília comporta-se como se o regime fosse parlamentarista. E a mídia, idem. Ora, não são as articulações de cúpula, ostensivas ou disfarçadas, que escrevem a história política do Brasil pós-Tancredo. Muito menos os partidos políticos porosos e gasosos. Todos eles, somados, não valem, hoje, um único MST.
Secos e molhados
Lembram-se?

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