Joelmir Beting
Porque o novo ministro do Trabalho, Edward Amadeo, disse no discurso de posse que não há crise de desemprego no Brasil - declaração reprisada nas páginas amarelas da Veja, desta semana -, economistas e sindicalistas tombaram um caminhão de melancias na cabeça do ministro. Eles se confessaram indignados com o professor Amadeo: Ele se revelou estar fora da realidade brasileira, na sentença de Vicente Paulo da Silva, presidente da CUT.
O ministro Edward Amadeo é um técnico e não um político. Com doutorado em Harvard, especializou-se em Teoria do Capital Humano. Reflete e escreve sobre o mercado de trabalho com embasamento científico e entusiasmo acadêmico. Tem mais um livro na praça, enquadrando o alvo da discussão nacional: A Teoria Econômica do Desemprego (Editora Hucitec).
O ministro está certo: temos desemprego, mas não uma crise de desemprego. Esta se caracteriza por taxas acima de 10% da força total de trabalho (pela metodologia do IBGE, internacionalmente aceita). Caso da Argentina, com taxa de 14% hoje, de até 17% há três anos. Caso da União Européia, entalada na média de 12%, sem misericórdia. Entre nós, o desemprego deste final dos anos 90 não é maior que o do início dos anos 80. No governo Collor, na travessia de 1992, o mesmo IBGE registrou picos mensais acima de 7%.
De certa forma, não foi o desemprego que cresceu. Foi a percepção coletiva do problema que, finalmente, apareceu. O ministro admite a existência de tendências preocupantes. Entre outras, a expansão inexorável do chamado desemprego estrutural, subproduto da modernização das empresas brasileiras (e não apenas no setor industrial, de maior visibilidade). Da mesma forma, lembra que não se deve confundir falta de emprego com falta de trabalho.
A exemplo da economia americana (com desemprego de apenas 4,8%), a economia brasileira tem dinamismo próprio. Somos um país em construção e não uma sociedade de mera reposição (caso da Argentina, do Uruguai e da União Européia). Ou seja: trabalho é o que deve faltar lá na frente - quando o PIB brasileiro recuperar um crescimento sustentado de 7% ao ano. Ou mais.
Fala-se muito em precarização do emprego na economia informal. Mas nada se diz do enobrecimento do trabalho no mercado formal - dentro das empresas que se modernizam.
Ao rebaixar a crise para tendências preocupantes o novo ministro não perde de vista a necessidade de reverter essas tendências imediatamente. Não se está esvaziando o estado de emergência decretado pelo presidente Fernando Henrique no trato da matéria, garante Edward Amadeo.
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