Joelmir Beting
Fazendo água por todos os furos, a indústria naval brasileira atraca sua crise hoje à tarde no Ministério dos Transportes. Os estaleiros nacionais vão discutir com o governo um novo programa de saneamento e recuperação do setor. Entre outras pedidas, linhas especiais de crédito e uma carteira de encomendas de cargueiros e petroleiros da ordem de US$ 1 bilhão, por baixo.
Exposição de motivos: 1) as empresas operam com menos de 20% da capacidade instalada; 2) construtores e armadores não conseguem rolar dívidas que totalizam US$ 1,1 bilhão; 3) há sobras de caixa de US$ 600 milhões no Fundo de Marinha Mercante; 4) a fatia brasileira no bolo de fretes e afretamentos da carga geral não passa de ridículos 3%; 5) em fretes e afretamentos, o Brasil deve gastar, este ano, mais de US$ 6 bilhões; 6) a construção naval continua subsidiada em meio mundo; 7) a globalização dramatiza a urgência de uma logística internacional de transportes sob controle nacional.
A indústria naval e a marinha mercante estão navegando abaixo da linha dágua desde meados da década passada. O setor envenenou-se com a própria saliva: desperdiçou subsídios e não rebaixou custos. O naufrágio moral da Sunamam e a falência técnica do Lloyd Brasileiro deixaram a marinha mercante a ver navios. Inadimplentes, construtores e armadores submergiram num impasse: a) sem o saneamento financeiro, não conseguem a reestruturação física e a carteira de encomendas; b) sem a reestruturação e as encomendas, não viabilizam o saneamento financeiro.
Os dois maiores estaleiros, o Ishibras e o Verolme, acabaram espalmados por Nelson Tanure, empresário controvertido. Ele deve quase US$ 500 milhões aos cofres públicos e já parou de construir navios. Prefere construir plataformas marítimas no Verolme e arrendar metade da Ishibras para um terminal de contêineres. O estaleiro Maua, tocado por Omar Resende Peres, acerta uma aliança com o grupo alemão Thyssen para a construção de seis petroleiros. Claro, se obtiver financiamento adequado ou competitivo. Estaleiros coreanos topariam executar a mesma encomenda com desconto de 40%. Não por talento, mas por subsídio.
Crédito naval competitivo seria parecido com prazos de 25 anos e juros de 4% ao ano sobre a variação cambial. E cobrindo até 95% do valor do navio. Eis o que o Sindicato Nacional das Empresas de Navegação Marítima (Syndarma) vai propor hoje na reunião de Brasília. Nesse formato, o Grupo Libra teria encomendas de pelo menos US$ 500 milhões.
Secos e molhados
Evaporação





