Joelmir Beting
O pacote japonês contra a recessão, que já dura sete anos, carrega a mão em políticas keynesianas dos anos 30: financiamento favorecido de obras públicas e de programas sociais. Ficou para decisão, em abril, o segundo lance da empreitada: redução da carga tributária para quem produz e para quem consome.
Pelo lado das obras públicas, nenhum mistério. São segmentos de grande peso na economia em geral: transportes, energia, telecomunicação, saneamento e proteção ambiental. Pelo lado da redução dos impostos, são outros quinhentos por cento. O governo rumina um déficit público de 6% do PIB, maior que o do Brasil. O primeiro-ministro Ryutaro Ashimoto reafirmou ontem que não abre mão da austeridade orçamentária, chumbada a um compromisso leonino: cortar o déficit pela metade em mais três exercícios fiscais.
Um corte nos impostos, sem uma redução equivalente nos gastos, implodiria a estratégia de redução do déficit. E um corte nos gastos públicos, nesta altura do calendário, produziria estragos eleitorais irreparáveis. Em julho, a coalizão partidária que sustenta o governo parlamentarista de Ashimoto defronta-se com o veredito das eleições legislativas, com o eleitorado de nariz torcido.
Com o pacote de US$ 124 bilhões, o governo espera reconquistar a maioria do eleitorado. Sem necessidade de rebaixar o Imposto de Renda das pessoas físicas, em abril. Analistas políticos apontam a fragilidade do otimismo oficial. Não haveria tempo para o reaquecimento da economia antes de julho. Nem mesmo com a redução dos impostos.
O elo perdido da estagnação econômica está no espírito de poupança da população japonesa. Uma questão mais sociológica do que econômica. Em tempo de vacas magras, tanto pior: o japonês senta-se na poupança familiar e deixa o consumo desmaiar. Feita de privação e renúncia, é a maior poupança familiar do mundo e da História. Algo parecido com todo o PIB japonês, de US$ 4,4 trilhões, quatro vezes e meia maior que o do Brasil.
O japonês pouparia, hoje, também a redução do Imposto de Renda. Por uma simples e boa razão: perdeu a confiança na estabilidade econômica e na segurança financeira do Japão. Por obra e (des)graça do atual risco de quebradeira em cascata dos bancos japoneses. Eles amargam perdas bilionárias no mercado imobiliário, com desvalorização de 70% em cinco anos. E acumulam um calote coletivo de US$ 745 bilhões. E não há governo algum capaz de costurar um Proer de US$ 745 bilhões.
Resultado: os consumidores ressabiados preferem permanecer na retranca. Sem o saneamento do setor financeiro, o pacote contra a recessão leva jeito de não passar de um miado de leão. Ou melhor: de um chiado de dragão.Secos e molhados
Fogaréu
Ajuda externa de US$ 5 milhões para apagar a fornalha de Roraima? Que migalha! Tanto barulho e tanta fumaça por nada? Só teria sentido uma ajuda de US$ 50 milhões.
Cochilo
O governo brasileiro restringe a entrada do capital volátil, tão paparicado em tempo de crash global. Se não mais precisamos do dinheiro sem bandeira, por que não rebaixar ainda mais os juros para todos nós botocudos?
Limite
Peritos do ramo sustentam que o limite da baixa dos juros seria uma taxa básica de 22% ao ano. Abaixo disso haveria fuga de capitais. Ora, algum país paga cupom cambial líquido acima de 10%?
Ministros
O regime é presidencialista? Por que tanta apalpação na escolha dos novos ministros? Isso não é fazer política. É politicagem.





