Joelmir Beting
Dizem que o PIB da China, que já dobrou de tamanho nesta década, deve arredondar US$ 1 trilhão em 1998. Deixou o do Brasil patinando na poeira e já aparece nos retrovisores do PIB da Grã-Bretanha. O novo primeiro-ministro, Zhu Rongji, estufa o peito: Em 2022, será da China a segunda economia mais poderosa do mundo.
Para manter o dragão ventando fogo pela média de 10% ao ano, Zhu Rongji engatilha um grande salto já devidamente sancionado pelo Congresso do Povo, braço legislativo do Partido Comunista. Trata-se de um programa de corte neoliberal, capaz de revirar no mausoléu de vidro o corpanzil mumificado de Mao Tsé-tung.
A cirurgia sem anestesia começa em 1º de abril, com a extinção sumária de 11 dos 40 ministérios da máquina de governo. Nada menos de 6,2 milhões de funcionários públicos serão demitidos em mil dias. E perto de 12 mil estatais serão desativadas sem choro nem vela, desempregando outros 5,4 milhões de chineses.
A nova teologia do PC chinês encoraja a crescente ração suplementar de capitais produtivos do exterior. No capital estrangeiro, a China comunista ganha de goleada de países emergentes que desfilam crachá capitalista. As múltis desfrutam de tratamento diferenciado e favorecido. Tanto assim que elas investiram em território chinês, nos últimos dez anos, um ativo delirante de US$ 324 bilhões. Quase o dobro do que aplicaram em toda a América Latina, Brasil no meio, nos últimos 100 anos.
Ano passado, US$ 45 bilhões. Para este ano, estão programados, por enquanto, mais US$ 38 bilhões. Semana passada a Kodak americana anunciou projetos de US$ 1 bilhão para a produção de máquinas e filmes fotográficos. O mercado chinês do ramo cresce acima de 20% ao ano e é dominado, até aqui, pela Fuji japonesa.
Economista de formação, o primeiro-ministro Zhu Rongji diz que a crise asiática não é um fiasco do modelo, apenas uma cólica do mercado, tipo ressaca bancária. Uma crise passageira. Ele jura que não vai desvalorizar o yuan (ajustado em 1994) e avisa que o dólar de Hong Kong continua rigorosamente imexível. Com o adendo: Não precisamos de doping cambial para incrementar nossas exportações. Temos outros elásticos, grandes e frouxos, para puxar.
A prometida rigidez cambial, casada com austeridade fiscal, amplia a cotação da China para um assento na Organização Mundial de Comércio (OMC). Uma confraria de 134 países, comprometidos com práticas leais de comércio. O que ainda não é o caso da China, campeã da pirataria e do dumping.
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