Informado pelo secretário do Trabalho sobre a taxa recorde de desemprego em 1962, o presidente John Kennedy (1917-1963) não se deixou abater: ‘‘Temos 7% de desempregados? Ótimo! Significa que temos 93% dos trabalhadores ocupados.’’
Informado pelo IBGE sobre o desemprego recorde de 7,2% em janeiro, o presidente Fernando Henrique Cardoso saiu pela mesma tangente. Ele disse, na semana passada, que poucos países do mundo ostentam desemprego de um dígito. A maioria transita acima de 10% na União Européia e na América Latina. Ou acima de 16%, não é de hoje, aqui ao lado, na Argentina.
Pelo sim, pelo não, o presidente decidiu encabeçar com o desemprego a agenda da primeira reunião ministerial do ano, e da sexta-feira, 13. Cada ministro vai ter de colocar na mesa o que faz, o que deixa de fazer e o que pode ser feito para aumentar a oferta de trabalho na economia brasileira. Na ausência de uma política de emprego, a reunião ministerial ensaia quebrar a passividade do governo diante da escalada dos sem-salário.
Afinal, não estamos em recessão. A economia do Real, já no quinto ano de carreira, desde a estréia da URV em março de 1994, registra um crescimento anual médio de 3,5%. E leva jeito de respeitar essa média na travessia de 1998. Ou o leitor acredita em recessão por decreto em ano de (re)eleição?
Um exercício de história contrafatual (o que poderia ter acontecido com certa variável se as demais tivessem tido um desempenho diferente) indica que, se a economia estivesse realmente em recessão desde 1994, a taxa de desemprego (pela metodologia do IBGE) estaria hoje acima de 10%. O Plano Real travou a contagem regressiva para a maior estagflação da História do Brasil, a do triênio 1995/97.
Sonho de uma noite de verão, uma política de emprego teria de combinar medidas consistentes de curto, de médio e de longo prazo. O repto é universal. Mais que isso: é o buraco negro da ciência econômica, ainda rarefeita nos tratos da teoria do capital humano. Única certeza: no estágio atual da economia brasileira, a expansão do emprego (ou a reversão do desemprego) tornou-se refém de um PIB de 7% ao ano, no mínimo. Estamos pela metade disso.
A modernização das empresas em geral altera a relação emprego/produto. É cada vez menor a quantidade de trabalho humano por unidade de produto. O que não deve ser deplorado. Ao contrário. Nossa economia, como diz o professor José Márcio Camargo, não pode continuar ‘‘gerando empregos ruins com salários péssimos’’. Esse regime de empobrecimento coletivo prejudica os desempregados e também os ocupados (com empregos ruins e salários péssimos).
Secos e molhados
Desafio

mockup