Joelmir Beting
No parlamentarismo italiano, os 55 governos de coalizão costurados no pós-guerra duraram, em média, 11 meses. O de Romano Prodi, com sua fachada de centro-esquerda, já dura 38 meses. Um recorde que lhe dá respeitabilidade interna e credibilidade externa. E nunca, como agora, o governo italiano precisou tanto disso.
Na entrevista à revista Veja desta semana, o primeiro-ministro italiano, um schollar no exato figurino do presidente Fernando Henrique Cardoso, diz que não é Maquiavel nem ingênuo: O que é ser ingênuo em política? Se for agir com austeridade e honestidade, então sou ingênuo mesmo. Posso até ser ingênuo, mas as coisas deram certo e estou durando bem mais que os outros.
Uma façanha política. A Itália que não se governa e não se deixa governar, segundo Benito Mussolini, está na crista de mudanças radicais por dentro e para fora. Mudanças conduzidas pela coligação de Romano Prodi, que dá carona a ex-comunistas do antigo maior PC do Ocidente. A um só tempo, os italianos são fustigados pela globalização, pela modernização, pela competição, pela integração européia e pela reorganização do Estado.
Um vespeiro na cola do outro. Com direito a mudanças no sistema político, na organização trabalhista e na regulamentação econômica. O governo central vai entregar o bastão a um sistema federativo semelhante ao alemão. Serão criados governos estaduais ou provinciais autônomos em assuntos orçamentários e fiscais. Haverá diminuição de um terço das cadeiras do Parlamento. E tanto o presidente como o primeiro-ministro passarão a ser eleitos diretamente pelo povo. Uma revolução.
Romano Prodi já acumula vitórias retumbantes. As grandes estatais da energia, do petróleo e das telecomunicações ganharam autonomia sob a forma de contratos de gestão e escaparam (com a ajuda da Operação Mãos Limpas) do assalto dos políticos e dos empresários. Passaram a dar lucro, no limiar da abertura dos monopólios, vestibular da privatização.
A desregulamentação da ordem econômica, do contrato trabalhista e da seguridade social, tanto quanto o ajuste fiscal exigido pela adesão à moeda única européia, desperta entre os italianos uma emoção maior que a dos gols de Bierhof, Battistuta, Del Piero ou Ronaldinho. Presidente da Enel, gigante estatal da eletricidade e ex-executivo da Olivetti e do Fininvest, Franco Tató comenta: Como de hábito, a resistência às reformas é mais ruidosa na Itália do que em qualquer outra parte. Mas, por cima do barulho, as mudanças acabam saindo mais rápidas e mais profundas do que em outros países. Só faltou dizer: Aqui na Itália, nada acaba em pizza.
Secos e molhados
Colisão





