Joelmir Beting
Orientadas pela Associação Brasileira de Supermercados (Abras), as grandes redes do ramo ensaiam abandonar o sistema de tíquetes-alimentação. O sistema caiu em descrédito, justifica o presidente da Abras, Paulo Afonso Feijó. Um descrédito do tamanho de R$ 7 bilhões, perto de 15% do faturamento dos supermercados em 1996.
Para Feijó, o problema é o excesso de difusão do sistema: Entrou muita gente despreparada no negócio, atraída pela emissão de uma autêntica moeda sem lastro. A falência da Brasilian Food foi o primeiro sinal. E os atrasos se acumulam no tíquete-alimentação nos supermercados e no tíquete-refeição nos bares e restaurantes. Sem cartas de fiança bancária não dá para continuaroperando no sistema.
A Abras defende o pagamento em dinheiro, pelas empresas em geral, do benefício-alimentação - dispositivo recentemente retirado do novo projeto de lei do Imposto de Renda da Pessoa Jurídica. A oferta do benefício sob a forma de tíquete-alimentação e tíquete-refeição fez do Brasil o maior mercado do mundo no gênero. Empregadores e empregados descobriram no sistema uma brecha pactuada para aumentar a renda do trabalho sem dar carona aos encargos sociais mal administrados pelos fundos do governo.
Nos cálculos de fim de ano da Associação das Empresas de Refeição e Alimentação-Convênio para o Trabalhador (Assert), temos 9,1 milhões de trabalhadores integrados ao Programa de Alimentação do Trabalhador (PAT). Isso inclui os 4,3 milhões que se servem dos restaurantes das empresas ou que recebem delas a cesta básica. O sistema todo alcança menos de 40% dos trabalhadores com carteira assinada. Empresas estrangeiras pedem passagem nesse mercado.
Outra briga das boas a Abras está comprando com a descontrolada atuação das cooperativas de abastecimento ou de consumo das empresas das entidades empresariais. Gratificadas por incentivos fiscais, as cooperativas deram de abrir as portas e as gôndolas também para a tal de comunidade. Ou seja: o público em geral.
O alvo principal das alfinetadas da Abras é a rede de 103 supermercados mantida pelo Sesi. Essa rede comercializa mais de 3.500 itens para quase 15 milhões de atendimentos só no Estado de São Paulo. A Cooperativa da Rhodia, empresa com 8 mil funcionários, tem em carteira mais de meio milhão de associados. Para a Abras, isso caracteriza concorrência desleal, sonegação fiscal e violação da lei das cooperativas. É o que está dito, textualmente, em dossiê encaminhado ao ministro Pedro Malan.
Pré-datados
- Terceiro front aberto pela Abras: fazer recuar todo o setor de supermercados do canto de sereia dos cheques pré-datados. No Natal, nada menos de 46% das vendas pegaram esse atalho. Caso único no mundo.
Concorrência
- Financiar a clientela de supermercado em até três ou quatro meses é exigência da competição. A mesma competição que impede a praxe de amoitar juros nos preços. E com direito a 2,5% de inadimplência. É mico.
Uma ninharia
- Quarta frente de combate da Abras: a proteção ainda elevada da indústria de alimentos, de bebidas, de brinquedos, de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Resultado: os importados, nas lojas, não passam de 3%.
Complicação
- Além da proteção tarifária, tais ramos industriais desfrutam da proteção burocrática: a dos complicadores alfandegários e sanitários. Isso faz com que a importação de uma pasta de dente demore meio ano.





