Joelmir Beting
Joelmir Beting
O futuro da nação não é o que se teme. É o que se ousa.
Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político
Reversão da reversão
A notícia que os brasileiros mais esperavam não foi manchete nos jornais de ontem: a redução da taxa básica de juros. Com vela acesa e terço na mão, os brasileiros aterrorizados pelo noticiário econômico contavam com essa boa notícia ali pela altura da Quaresma, ao fim e ao cabo de um Natal sem peru e de um carnaval jururu.
Os executivos financeiros, que são do ramo, também não imaginavam uma redução de TBC antes do segundo trimestre. Primeiro, porque o governo teria de aguardar pelo menos 120 dias para colher os primeiros resultados benéficos do amargo purgante monetário. Segundo, porque a crise global ainda vai ter de passar a pé pelas águas do Mar Vermelho da paranóia externa: os choques anunciados da Coréia e do Japão. Terceiro, porque os estragos da explosão dos juros no ventre da dívida pública (que financia o déficit público) foram devidamente neutralizados, com enorme desgaste político, pelo pacote fiscal remendão da semana passada.
Pesquisa de uma empresa de consultoria plantada em São Paulo, Nova York e Londres, realizada segunda-feira e terça-feira, com mais de 250 executivos financeiros de grandes empresas, deu a medida certa dessa chutometria. A pergunta: até quando o governo sustentará a taxa básica na marca de 3,05% ao mês? Resposta: 1) 36% dos entrevistados apostam na manutenção dessa taxa até março; 2) 43% acreditam que a queda dos juros, em suaves parcelas mensais ou bimestrais, começará só em julho, virada do semestre; 3) 21% fecham com o presidente Fernando Henrique: Só Deus sabe. Claro, se Deus, em sendo brasileiro, permanecer de plantão, sem trocar o Brasil pelo Japão.
Eis que o Banco Central, decorridos apenas 20 dias do choque, arrebenta com todas as expectativas do tal de mercado, teoricamente bem informado, e rebaixa a TBC para 2,90%, já para dezembro. Um golpe baixo na sinistrose orquestrada. Com duas leituras políticas: 1) havia overdose na taxa anterior, de caráter preventivo; 2) havia esquema premeditado de reduzir a taxa básica a partir da aprovação da primeira das reformas entaladas no Congresso.
Overdose? Para segurar o capital estrangeiro de curto prazo no Brasil bastaria elevar a TBC de 1,58% (taxa congelada desde abril) para 2,30%. Ou para 2,31% - um número, digamos, mais técnico. Ou seja: para atrair o cavalo, basta um par de cenouras e não meia dúzia delas. Ou será que não? Antonio Delfim Netto, que já esteve lá e viveu decisões do gênero, me pega pelo braço: Nesse tipo de coisa, é melhor errar por exagero do que por timidez. O erro por insuficiência não impede o desastre e não tem mais conserto. O erro por excesso pode ser corrigido.
Secos & molhados
Correção
-A correção começou já para o segundo mês da série. Resta saber se a taxa de 2,90% declinará ou não também em janeiro ou fevereiro. Alguma coisa do tipo 2,74%, por que não?
Coerência
-A redução prematura da TBC tem tudo a ver com a aprovação da reforma administrativa, com folga política de 43 votos sobre o piso de 308. Folga de 14%.
Mais fácil
-A redução monitorada dos juros também facilita a negociação do pacote fiscal. A taxa de 2,90% dispensa, por exemplo, a recarga do IRPF, refugada no Congresso.
Reversão
-Ainda há tempo e espaço para reverter o piorômetro nacional. A ampliação das privatizações, decidida também na quarta-feira, é a boa notícia que deu a volta ao mundo. E o ágio de 83% no leilão da Enersul é igualmente uma botinada nos fundilhos da sinistrose.





