A bordo da primeira inflação gregoriana de um dígito, desde 1957, decolagem da gastança juscelinista de Brasília, a população brasileira se permite o luxo de encarar o ano-novo com otimismo. Dois terços, exatamente, acreditam que 1997 será melhor do que 1996, que acabou ficando menos ruim do que 1995. Fonte: Gallup.
Realizada na segunda quinzena de novembro, a pesquisa nacional identificou dose ainda maior de otimismo na classe A, recheada de formadores de opinião. Justamente a classe potencialmente mais cética, sobre ser socialmente a mais favorecida pelo ‘‘status quo’’.
Nas classes C, D e E, as mais beneficiadas pelo Plano Real, os otimistas somam 64%. Por que em menor número? Primeiro: os ganhos nos primeiros 30 meses do Real ficaram de bom tamanho, pensam eles. A maioria vegeta nos desvãos da economia informal e nunca teve medo de perder o emprego. Ou melhor: de perder o trabalho. Segundo: em ciclos de desconcentração de renda, os grupos mais beneficiados saem da letargia e do fatalismo para a descoberta de novas necessidades e novas frustrações. O tal de Efeito Sauvy, como dizem os economistas.
O Índice de Otimismo vem sendo produzido pelo Gallup, em cada virada de ano, desde 1981. Na recessão de 1981/83, ele trafegou perto de zero. Na entrada da Nova República, em 1985, saltou para 38%. Com a frustração do Plano Cruzado, não sobrou um único otimista no ‘‘réveillon’’ de 1986. Outra onda de esperança coletiva varreu o País no Natal de 1989, com índice de 42% de confiança no primeiro presidente eleito em 25 anos. E tome outra decepção colossal: 18% abaixo de zero em dezembro de 1990.
Nos três anos seguintes, os otimistas do ano-novo nunca passaram de 20%. Com a estréia do Real, em julho de 1994, o Índice de Otimismo escalou o recorde de 58%. No ‘‘réveillon’’ passado, o Real baixou a bola para 52%. Agora, crava novo recorde desde o lançamento em 1981: otimismo de 66%.
O que espera a maioria dos brasileiros? Cinco indicadores combinados: 1) inflação ainda menor; 2) expansão da economia em geral; 3) aumento da oferta de emprego; 4) aumento real do salário; 5) governo e Congresso reformando tudo o que deve ser reformado.Desemprego
- Inflação quase dentro da jaula e arrocho salarial amaciado, a preocupação maior dos brasileiros, na área econômica, é com a ‘‘garantia do emprego’’. Para 48% dos entrevistados pelo Gallup, o desemprego ‘‘tende a crescer’’ no ano-novo.
Já foi maior
- Ano passado, a expectativa de desemprego crescente contaminou 58% dos entrevistados. Mas o pico da sinistrose deu-se na virada de 1991, com 71% de pessimistas. Tiro e queda: 1992 registrou o recorde de desemprego da década, com 6,1%.
Em declínio?
- Para o IBGE, a taxa de desemprego deve estar fechando o ano ao redor de 5,2%, contra o pico de 5,9% na altura de maio. Como as projeções para 1997 apontam um PIB maior que o deste ano, tudo indica que o desemprego continuará recuando.
Bola da vez
- A série do IBGE demonstra que o desemprego no Plano Collor foi maior que no Plano Real. O que aumentou, nos últimos dois anos e meio de estabilização, não foi o desemprego, foi a nossa preocupação com o desemprego. O que é um bom começo.

mockup