JOELMIR BETING
Com essa reforma ministerial já acertada, vamos passar do eu acho para o eu faço.
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República
Emprego sem túnel
O problema existencial do governo Lula não está nas curvas da inflação ou nas contas do déficit ou da dívida. A inflação está em declive pelo 14º mês consecutivo. Ela ensaia resvalar da faixa de 9% para a raia de 6%.
O déficit pode ser gerenciado. E a dívida pública, para quem tem o déficit no cabresto e o crédito na praça, deixa de ser um gargalo: dívida pública existe, não para ser quitada, mas para ser rolada. Palavra de George W. Bush.
Elo perdido
O problema existencial do PT lá é a sinistra combinação de desemprego no teto com salário no piso. Ano passado, o desemprego subiu para 12,3% e o salário perdeu 12,5%.
Pior: na região metropolitana de São Paulo, endereço de um quinto do PIB e da casa do presidente Lula, o desemprego cravou 14,1% e a renda baixou 15,3%. Uma coisa ligada à outra: quando a oferta de emprego vai para o brejo, a precarização do trabalho, com aviltamento do salário, responde de bate-pronto. Para o governo Lula e para o PT no governo, o elo perdido das promessas de palanque é justamente o do emprego encruado.
Sem milagre
Não há milagre no mercado de trabalho, costuma grifar o professor José Pastore, da USP. A menos que se perpetre o milagre do espetáculo de crescimento em vez do atual crescimento do espetáculo. Do espetáculo pessoal do presidente Lula.
Tem-se que, no caso brasileiro, a expansão do emprego (formal e informal) vai ter de aguardar por um PIB sustentado de 5% por pelo menos três anos consecutivos. De 3,5%, desejado para este ano, o melhor que se pode conseguir é não desempregar ainda mais. Ou se preferem: ainda não vai melhorar, mas já vai parar de piorar.
Das pedreiras
O aumento do emprego terá de aguardar, em eventual ciclo de expansão, também pelo esgotamento da capacidade ociosa já instalada das empresas de todos os ramos e portes incluído o setor terciário dos serviços em geral, endereço de quase dois terços do mercado de trabalho.
E mais: terá de ficar na fila de espera de um novo aumento das horas trabalhadas, de uma nova onda de rotatividade (compressão salarial) e de um novo aporte de modernização do aparelho produtivo.
Dá para tomar uma Ambev antes?
Lógica pura
O elástico da modernização continuada das empresas vem sendo puxado pelo guindaste da competição crescente dos mercados. O Brasil está atrasado na modernização e desajeitado na competição. Admite-se como inexorável o aumento induzido da produtividade do fator trabalho, no paralelo do aumento inadiável da produtividade do fator capital.
Tradução: haverá aí pela proa uma ampliação encadeada da produção por unidade de trabalho. Ou uma redução progressiva do trabalho por unidade de produto.
Enquanto isso...
E os 10 milhões de empregos de 2003 a 2006?
Faltaria perguntar: em que pé sem cabeça está a reforma da legislação trabalhista anacrônica, castradora, pero bom-mocista?
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