''Engraçado. O mapa do Brasil lembra uma cabeça enterrada na areia. E com todo o avestruz de fora.''

Paulo Mendes campos (1931-1987), escritor e poeta

Brasil no balcão
Guarnecido por seis ministros, o presidente Lula comanda nesta quinta-feira o ''showroom'' do Brasil para meio milhar de executivos de empresas transnacionais e de bancos internacionais. Em Genebra. O seminário foi articulado pelo Itamaraty e abre o jogo e a alma no propósito: atrair para o Brasil, a partir de 2006, US$ 20 bilhões por ano de investimentos diretos. Ano passado, US$ 11 bilhões. Para este ano, consultorias do ramo apostam em US$ 12 bilhões. Para o ano que vem, US$ 15 bilhões.

Portanto, na média anual do governo Lula, US$ 14,5 bilhões. Na Era FHC (1995-2002), a média anual brilhou US$ 19 bilhões. A dólar médio de 2000 (R$ 1,68), as transnacionais investiram no período um acumulado de US$ 152 bilhões. No planeta dos emergentes, só ficamos atrás da china, com recepção de US$ 267 bilhões. Sem contar Hong Kong.

Efeito câmbio
Depois do pico de US$ 30,4 bilhões, em 2000, o capital produtivo tirou o pé do acelerador aqui no Brasil. Em parte, por mero efeito cambial. Até 1998, o dólar comprava em bens, serviços e ativos o equivalente a US$ 1,20.

Com a remoção cirúrgica da banda cambial, o Brasil foi ficando progressivamente mais barato. A cotação mediana do dólar, aqui traduzida em poder aquisitivo do capital estrangeiro no Brasil, avançou para R$ 1,57 em 1999, R$ 1,68 em 2000, R$ 2,18 em 2001, R$ 2,96 em 2002 e R$ 3,08 em 2003. Para este ano, o mercado financeiro projeta mediana de exatos R$ 3,00, com R$ 3,10 na ponta de dezembro.

O detalhe: em euro, o Brasil virou pechincha maior ainda.

Comendo poeira
Pesquisa da revista ''Veja'' (desta semana) revela que no conjunto das 410 maiores empresas estrangeiras aqui instaladas (exceto setor financeiro), o Brasil de Lula ainda não reverteu a desaceleração de 2001/2002, segunda metade do governo FHC.

Ou, se preferem: deixamos de ser a segunda bola da vez no mapa-múndi do capital produtivo, o bem-amado. Entre os emergentes, estamos comendo poeira, pela ordem: 1) China; 2) México; 3) Tigres; 4) Índia; 5) Rússia; 6) Polônia.

Menos pela ousadia deles e mais pela tibieza nossa.

Ambiente pesado

Realizada por técnicos do Banco Central, da Unctad, da Cepal e da Sobeet, a pesquisa da ''Veja'' detectou que 46% das empresas estrangeiras perderam dinheiro no Brasil no saldo de 1995 a junho de 2003.

Os executivos queixam-se dos vazios estruturais e dos desvios institucionais que fazem um ''ambiente de negócios'' um tanto quanto inóspito para o capital sem fronteira - com grandes mercados afluentes e descomplicados pipocando na Ásia e no Leste Europeu.

Em matéria de capa, abordada ontem neste espaço, a revista serviu-se de estudos de economia comparada do Banco Mundial para retratar nossa cara feia. Num ''ranking'' de 133 países, desfilamos entre os priores do mundo em burocracia legiscrativa, em legislação trabalhista, em garrote tributário e - fechando a roda - em (in)segurança jurídica dos contratos.

E agora, José?
A ''Veja'' perguntou o que as múltis farão a partir de agora no Brasil. Para os próximos cinco anos, 76% das empresas pretendem investir com ressalvas e 24% avisam que vão fechar os cofres. Dos 76% que vão continuar investindo (com ressalvas), 80% informam que vão investir mais naquele G-7 aí de cima.

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