JOELMIR BETING
Lula tem obsessão pela respeitabilidade do mercado. Por causa disso, realiza política ortodoxa exagerada.
George Soros, astro-rei do mercado
Mal desnecessário
Quem diria? Em setembro de 2002, tempo de sinistrose eleitoral fabricada pelo tal de mercado, de fora para dentro, o megainvestidor George Soros, filósofo nos dias ímpares e filantropo nos dias pares, vociferou pela ''Financial Times'' que, se eleito, Lula vai quebrar o Brasil, rasgar contratos e aplicar calote em meio mundo.
Soros ajudou a embrutecer o risco Brasil, a rebaixar o C-Bond, a zerar o crédito externo, a explodir o câmbio, a disparar os juros, a encarecer as dívidas interna e externa, a reatiçar a inflação, a rebaixar os salários, a reduzir os empregos, a perpetuar a estagnação econômica de 2003, de 2004, de 2005...
Incêndio
O governo Lula teve de gastar 2003, com rescaldos para 2004, na insana tarefa de apagar o incêndio ateado em 2002. De resto, incêndio para o qual também contribuiu com tambores de gasolina aditivada. Sim, na medida em que acenou em palanque com políticas populistas do gênero ''criação de 10 milhões de empregos em quatro anos'' ou ''duplicação do valor real do salário mínimo em quatro anos''.
Ou ainda: ''ruptura da política monetária ditada pelo FMI'' e ''revisão do modelo entreguista de privatização''.
Overdose
Durma-se agora com a nova falastrice de Soros, emitida domingo no Fórum Mundial de Davos. Disse ele em coletiva que a política ortodoxa da ''equipe de Lula'' está correta no formato e equivocada no conteúdo.
A austeridade fiscal (superávit primário de 4,25%, maior que o exigido pelo próprio FMI) e o arrocho monetário (crédito curto e caro) estão pecando pelo exagero ou pela overdose suspirou Soros.
Com a humilde ressalva: ''Well, estou apenas superficialmente informado sobre o Brasil..''
Como sempre esteve.
Pleno acordo
Tenho sido um crítico full time do arrocho monetário de padrão mal desnecessário. Estou de pleno acordo com Soros. Ou melhor: até Soros está de pleno acordo com a gente. Com todos nós antenados na economia real asfixiada, para expansão ainda maior da nossa já impagável dívida social.
A ortodoxia exagerada de 2003 está condenada por um par de números divulgado sexta-feira pelo IBGE: ano passado, a taxa de desemprego chegou a cravar o recorde de 13%, enquanto o rendimento médio do trabalho (formal e informal) afundava mais 12,5%.
Em se considerando que o consumo das famílias dá o torque de 60% do PIB... Pois o tal de mercado aposta, para 2004, em crescimento de 3,5% para esse mesmo PIB.
Lei de Newton
Emprego travado, salário depenado, crédito salgado, imposto elevado. Para crescer 3,5%, este ano, a economia brasileira vai ter de violar a lei de gravidade promulgada por Sir Isaac Newton. Ou seja: famílias, empresas e negócios terão de erguer-se do chão puxando os próprios cabelos.
Que cabelos?





